T. Christopher Gorelick trabalha com financiamento de imóveis durante o dia, e à noite em geral está dormindo. Ele quer ser um escritor profissional um dia.
A seguir, as primeiras páginas de O Negócio Fantasma, seu romance de ficção que mistura ficção científica e humor, que está prestes a ser concluído. Essa é sua primeira vez impresso.
Não fui eu. Foi o que eu disse aos tiras, e era verdade. Então como que esses cadáveres ficaram assim, tão estuprados e assassinados? Eles exigiam uma resposta que eu não tinha.
Não é que os cadáveres estivessem só um pouco estuprados e mortos; estavam completamente estuprados e assassinados até o fim. Foram decapitados, e havia um monte deles, empilhados até o teto no meu colchão no orfanato Casa McRonald. Os tiras queriam respostas.
Era o meu aniversário de 13 anos, eu já era legalmente adulto e estava de malas prontas. Meses antes eu havia pescado uma bolsa integral para o Instituto CHUCA na maquininha da Pizzaria Holocausto, aquela no shopping ao lado da Sanduíche Holocausto. Marquei o quadradinho ao lado do curso que eu queria fazer—telecinese—e mandei o formulário pelo correio. Alguns meses depois fiz 13 anos e estava louco para pôr os pés na estrada. Instituto CHUCA, aqui vou eu, ou pelo menos era o que eu pensava.
Treze anos no orfanato Casa McRonald era o suficiente para deixar qualquer um zureta, e não só um pouco zureta, mas maluco mesmo, até o osso. Além disso, não eram quaisquer 13 anos da minha vida; eram os meus anos de desenvolvimento, do zero aos 13. Esses anos são importantes. É ao longo desses anos que o seu cérebro forja as redes de sinapses por meio das quais ele filtrará sua percepção da realidade ao longo de toda a sua vida. Se você tiver sorte, você passa esses anos com um pai e uma mãe. O pai te ensina como queimar uma floresta para colher carne. A mãe prepara deliciosas tortas de carne para o jantar, e você não pode sair da mesa até que tenha comido todas as migalhas de torta de carne do seu prato. Você precisa daquelas vitaminas torradas e daqueles minerais crocantes para ficar grande e forte.
Infelizmente, os meus anos de desenvolvimento não tiveram muitos jantares assim, e tive que aprender sozinho a queimar florestas.
Cresci na base de uma dieta estrita de NutriNojo Sem Nutrientes das Corporações McRonald—que é feito principalmente de esqueletos de baratas espaciais moídos, para que o governo.gov exija que a McRonald inclua “Sem Nutrientes” no nome.
O NutriNojo Sem Nutrientes talvez justifique o meu QI abaixo da média, ou não. Sei lá.
Outra coisa, a minha coluna vertebral é em forma de S, graças a uma infância inteira dormindo em um colchão velho jogado sobre um radiador quebrado de trator.
Admito que meus anos de desenvolvimento foram anos de carência, mas como dizíamos na Casa McRonald, vire essas sobrancelhas franzidas de ponta cabeça. Além do mais, podia ter sido pior. Ratzo Finkelstein dormia em cima de uma bolsa esportiva cheia de bolas de golfe, ele tinha um lábio leporino que ia até as orelhas e era praticamente cego. Provavelmente por isso as freiras nunca deixaram ele ganhar o sorteio anual de operações para lábio leporino, que era uma baita marmelada e, no final das contas, era só um concurso de popularidade. Eu me dava muito melhor do que o Ratzo Finkelstein. O coitado do Ratzo não tinha nem uma sobrancelha franzida para virar de ponta cabeça, só dentes e gengiva.
Eu pelo menos tinha o Instituto CHUCA no meu futuro, ou pelo menos tinha até que aquela pilha enorme de cadáveres estuprados e assassinados aparecesse na minha cama de radiador quebrado de trator. E que pilha de cadáveres estuprados e assassinados! O Delegado BetaTron6000 disse que, de todos as pilhas de cadáveres decapitados que havia visto em 200 anos de polícia, a minha era a mais impressionante—apesar de eu não ter nada a ver com aquilo.
Os tiras contaram 99 cadáveres no total, incluindo cidadãos proeminentes como o super-herói Capitão Pectorus PhD, a atriz de teatro clássico Veronica Beresford, o deputado canalha Miles Hubert, conhecido como “Bola Fora”, e a escritora de romances água-com-açúcar Jane Manitoba, todos moradores de Apple City. Na pilha de corpos decapitados encontraram também restos do Unicórnio do Espaço, um unicórnio espacial, uma magnífica criatura, mas que sem a cabeça parecia nada mais do que um cavalo branco morto.
Minha pilha de cadáveres decapitados tinha de tudo: um duende, um chefe da máfia chinesa, uma garota de programa de luxo que fazia faculdade, um mercenário, um mago barbudo, uma modelo de lingerie, um capitão de nave espacial. Como eu disse, a minha pilha de cadáveres decapitados tinha de tudo. Só tinha um problema, ela não era minha.
“Eu estava na lojinha de souvenirs do orfanato”, disse aos policiais. “Eu estava me despedindo das irmãs Zalconni.” As irmãs Zalconni eram gêmeas siamesas, grudadas na cabeça e no quadril. Clare, a da esquerda, sempre foi meiga comigo, mas eu tinha uma queda pela irmã dela, a Kim, a da direita. A maior parte da genitália estava do lado da Kim.
“Deixa eu ver se entendi”, disse o Delegado BetaTron6000. “Você vai até a lojinha de souvenirs do orfanato para falar tchau para as suas amigas.”
“Isso”, eu disse.
“Quando você retorna, 15 minutos depois, tem uma pilha de 99 cadáveres assassinados e estuprados no seu colchão.”
“Você sabe tanto quanto eu, delegado”, eu disse, e dei de ombros. “Agora, se me permite, tenho que pegar um ônibus. Estou matriculado no Instituto CHUCA.”
Tentei passar entre dois policiais, mas eles não se mexeram.
“Agora o Instituto CHUCA”, disse o Delegado BetaTron6000. “Impressionante, Camarada.” Ele estava evidentemente impressionado. “Mas eu acho que vou ter que pedir que fique por aqui até que essa história esteja resolvida.”
“Não dá, delegado”, eu disse. “Estou louco para pôr os pés na estrada.” Coloquei a mão na parte de traz da calça e cocei o rego para provar. “Além disso, alguém deve ter visto quem fez isso. Divido esse quarto com outros 600 órfãos.”
“Não há testemunhas, Camarada. Hoje é noite de macarrão e cinema. Todo mundo está no auditório assistindo a bangue-bangue espaguete e comendo espaguete.
“Então fale com as irmãs Zalconni. Eu estava com elas o tempo todo.”
“Você quer dizer essas irmãs Zalconni?”, perguntou o Delegado BetaTron6000, apontando para o meio da pilha. Eram as irmãs Zalconni, sem as cabeças. Elas tinham sido estupradas e assassinadas, tão estupradas e assassinadas quanto os outros cadáveres, talvez até mais, estupradas e assassinadas até o fim.
“Meu São Pedro!” gritei. “Que coisa horrível.”
Com as irmãs Zalconni na pilha, eu não tinha álibi. Pior ainda, alguém havia se enganado na contagem—sem dúvida por causa das partes compartilhadas pelas irmãs Zalconni. Eram exatamente 100 cadáveres estuprados e assassinados empilhados até o teto no meu colchão, e ninguém gosta de números redondos.
O julgamento foi curto e direto ao ponto. O advogado de acusação era um gorila, literalmente. Era um gorila de 500 quilos, de terno e gravata.
Eu não tinha dinheiro para pagar um advogado de defesa, então preenchi o formulário para conseguir um gratuito no site do governo.gov.
Nome?
Camarada.
Sobrenome?
Eu não tinha sobrenome; as freiras nunca se deram ao trabalho de me dar um, mas a Irmã Mary Margaret sempre me chamava de “mãos de pinto” porque as minhas mãos estavam sempre dentro das calças, então fui com esse mesmo.
Mãos de Pinto.
Em uma escala de um a dez, o quão sórdido você quer que o seu advogado seja, sendo um a menor quantidade de sordidez e dez a maior?
Pensei comigo que mais era sempre me-lhor, então cliquei em “dez”.
No dia do julgamento, o meu advogado chegou atrasado.
“Sou o seu advogado”, ele disse. “Perdi alguma coisa?” Trocamos um aperto de mãos. A dele era fria e úmida. “Quantos anos você tem, garoto, uns 11? Me descola um cigarro?”. Ele deu uma olhada no meu processo. “Vixe”, ele disse. “Você estuprou todas essas pessoas?” Seus olhos ficaram vidrados. “Como foi?”, ele perguntou. Ele olhou para o júri. “Mas que bando de ca-chorros.” Ele riu. “Au. Au.” Então se virou para a mesa do advogado de acusação. “Aquilo é um gorila?” Seu queixo caiu. “Eu não vou encarar aquilo”, ele disse, e foi embora. Eu fiquei sem representante legal e o julgamento já tinha começado. Dez talvez tenha sido sordidez demais.
“Senhoras e senhores do júri”, disse o gorila. “Aqui está a prova A.” Ele apontou para o meu colchão velho do orfanato. Estava coberto de sangue. “Quero chamar o Sr. Camarada Mãos de Pinto”, disse o gorila.
Enquanto eu me aproximava do banco dos réus, o gorila jogou um pó mágico no ar que fez tudo ficar preto e branco. Aquilo também me obrigou a andar em câmera lenta e adicionou uma música de fundo bastante sinistra ao tribunal.
Videos by VICE
More
From VICE
-

-

The Apple Watch Ultra 3, because there aren't pics of a rumored, unreleased Ultra 4 yet. – Credit: Apple -

Bruce Willis -

Nickelodeon