Okichitaw Não é o Tae Bo Aborígene

Quando imigrei para o Canadá, percebi que tenho algo em comum com a maioria dos canadenses: não sabemos porra nenhuma sobre os nativos daquele país. Procurando melhorar minha situação (mal aí, Canadá, você tá sozinho), achei que deveria participar de uma sessão de “Okichitaw”, uma arte marcial desenvolvida há décadas por George Lepine. Não existe possibilidade nenhuma de alguém ver o Okichitaw em sua forma pura dentro de um octógono, não apenas por seu foco principal serem as armas, mas também porque os movimentos corpo-a-corpo que fazem parte da luta seriam muito brutais para uma competição. Depois de uns exercícios de aquecimento que ainda estão impedindo minha habilidade de andar depois de seis dias, me ensinaram várias maneiras eficazes de abrir qualquer pessoa com uma faca, uma machadinha ou com a coronha de uma arma. O Okichitaw faz o caratê parecer dança de salão.

Apesar de todo esse potencial de carnificina nas aulas, o Lepine, criador do Okichataw e “Okimikahn”, ostenta uma personalidade suave e acolhedora. Mais tipo Sr. Miyagi do que Ken Shamrock, ele talvez não seja a primeira coisa que venha à mente quando se pensa em um mestre durão de artes marcias. Mas que tipo de pessoa você preferiria ter pra te ensinar como lutar: aquele otário que te zuava no colegial ou o amável ancião que dá um tapinha nas suas costas pra te encorajar mesmo depois de o filho dele de 17 anos ter te dado uma surra? Enquanto fiquei ali com dores e choramingando, o Mestre George sentou ao meu lado e falou sobre a criação que poderia inspirar uma renascença aborígene.

Videos by VICE

VICE: Me fala a história geral de como tudo começou.
George Lepine:
Foi meio louco. Me lembro de estar falando sobre isso em minha própria comunidade, e pessoas me olhavam como se eu fosse louco, dizendo que esses sistemas tinha morrido há muito tempo. Mas me lembro de ir a um grupo de ajuda para alguém que estava passando por algumas dificuldades, e eu falava bastante como um lutador de artes marciais, descrevendo o que uma pessoa deve fazer para superar esses desafios. Um senhor resolveu falar e disse: “É isso que você deveria estar falando, George. Se estivesse ensinando isso, não teríamos esses problemas”. Então comecei por aí.

Quanto tempo demorou pra organizar tudo?
Comecei no final dos anos 80. Nos anos 90 estava pesquisando particularmente em Manitoba, porque queria manter isso no sistema. Tinha uma faixa de sexto grau em Tae Kwon Do e uma faixa de sexto grau em Hapkido, que são artes marciais coreanas. O padrão no mundo é que quando você atinge o sexto grau em qualquer arte marcial, você pode incorporá-la ao seu próprio sistema. E eu estava pensando nisso muito antes de acontecer. O desafio surgiu quando estava estruturando algo que nunca havia sido escrito antes. Nossas tradições são orais, então era o meu trabalho escrevê-las.

Você teve medo que suas experiências com outras artes marciais talvez influenciassem o desenvolvimento do Okichtaw?
Quando entrei no mundo das artes marciais e entendi a estrutura de realização e conceito das artes marciais, foi apenas então que pude estruturar o Okichitaw. Tenho que ser honesto: foi apenas então que pude estruturar o que havia aprendido e o que as coisas significavam. Se não tivesse aquilo, tudo que ensinaria seria como usar uma faca e talvez uns ataques de machadinha. Era tudo o que tinha.

Por que você decidiu não competir com o Okichtaw? Você com certeza teria criado um nome muito maior pra você.
A competição restringe, é limitadora. O Okichitaw não tem regras. Trata de derrotar seu oponente e partir pra próxima. E conversei com alguns dos outros mestres de Muay Thai e eles estão tristes agora que conseguiram popularizar suas artes a tal ponto que fez com que isso perdesse uma grande quantidade de valor tradicional. Uma vez que os ocidentais descobriram o Muay Thai, isso mudou todo o conceito e a filosofia, e eu odiaria nos ver avançando por esse caminho. É claro que queremos fazer vídeo-aulas, temos que fazer isso. Se meu tio ou eu mesmo formos atropelados por um ônibus amanhã, o sistema estaria perdido. Tenho um filho de 13 e outro de 17, então é muito importante para mim que isso faça parte da vida deles. Quando crescerem e tiverem filhos, eles podem lhes ensinar também.

Seria justo dizer que o Okichitaw foca mais na praticidade dos ataques em vez da performance?
Acho que a diferença é que se você estivesse observando outra arte marcial tradicional asiática, diria, “deve ser feito dessa maneira”. E para alguns componentes, isso é correto, mas um indivíduo que talvez seja substancialmente menor que o indivíduo ensinando provavelmente não terá a capacidade de usar essa técnica com a mesma força. Eles talvez tenham que incorporar seus corpos, ou algum movimento para frente, e o Okichitaw permite que isso aconteça.

Então leva em conta o indivíduo.
Com certeza. Porque não há dois guerreiros iguais, e o guerreiro não era apenas um lutador, o guerreiro se tratava de um pacote e o que ele trouxe pra toda a comunidade para fazê-los se sentirem seguros em sua presença. Então o Okichitaw se alimenta disso.

Todos os movimentos que aprendi hoje pareciam envolver realmente segurar uma arma ou imaginar que você estivesse usando uma.
A ideia é que, historicamente, nunca tivemos a oportunidade de ver todos esses outros sistemas de luta no mundo. Apenas sabemos o que sabemos. E o que sabemos é como usar uma faca de forma correta, como usar um porrete de forma correta, e como acabar com seu oponente o mais rápido possível. O soco reto, por exemplo, você não verá isso no Okichitaw. Você verá um soco carregado e selvagem vindo na direção da lateral do pescoço ou da cabeça. Não é muito diferente do que se você estivesse usando um bastão ou um pedaço de pau. Se, e espero que isso não aconteça, você perder sua arma, você passa para suas técnicas de mão.

Conte-e sobre o bastão que está no palco.
Esse bastão de águia foi dado a mim por um ancião, e representa o sistema de artes marciais do Okichitaw que foi aprovado pela comunidade aborígene. Essas penas que estão nele, elas passaram por uma cerimônia. Elas passaram pela dança do sol. Meus tios passaram por essa vida com elas. Então gostaríamos de honrar isso.

O fato de você ter uma medalha do Campeonato Mundial de Artes Marciais Chungu por causa do bastão deve significar que foi uma grande honra para você estar lá.
Foi uma grande honra, mas me lembro como estava absolutamente cansado durante aquela demonstração. É uma parte que na qual você compete com outros mestres de artes marciais de todo o mundo, então você tem que se explicar e se justificar. Mas foi uma grande honra.

Você é um puta cara humilde, e claramente não quer ser reverenciado. Onde você se vê nas artes marciais?
Minha vantagem era ter alguma experiência nas artes marciais, mas também ter muitos bons professores. Tive sorte de ter crescido em uma comunidade em Manitoba cheia de ótimos professores. Mas, pra mim, não se trata de vender discos.

Então esse não é o Tae Bo nativo?
Não! Se trata de dividir suas histórias. De todas as artes marciais únicas de todo o mundo, quando vocês as pratica, você está experimentando outra cultura. Quando você pratica o Okichitaw, você está experimentando a cultura dos Plains Cree. Muitas outras escolas querem uma grande quantidade de seguidores para fazer dinheiro. Nosso sistema não quer isso. Estamos aqui para dividir histórias. Provavelmente 80% das nossas aulas são aborígenes, mas frequentemente são os outros 20% que levam as história para fora da comunidade e dividem com o mundo exterior. E isso é muito importante para nós, para que não sejamos esquecidos.

JORDAN DARVILLE VICE CA
TRADUÇÃO EQUIPE VICE BR

Thank for your puchase!
You have successfully purchased.