O Quirguistão não recebe muita atenção da imprensa, a não ser quando está imerso no mais completo caos – e como você deve ter notado, isto está acontecendo atualmente. Nesse momento moro na capital, onde todos os revolucionários, assassinos, policiais e jornalistas parecem estar reunidos.
Cinco anos atrás, protestantes invadiram os prédios do governo em Jalal-Abad, no sul do Quirguistão, o que iniciou o processo rumo à relativamente calma Revolução das Tulipas, que instaurou Kurmanbek Bakiev no poder. Hoje, os quirguistaneses estão se revoltando de novo. Consternados com a corrupção, o desemprego, aumento dos impostos e pelo fato de Bakiev ter transformado o governo em seu próprio negócio familiar, as pessoas decidiram que era hora dele desaparecer.
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No dia 7, manifestantes marcharam rumo ao centro da capital Bishkek para uma manifestação do lado de fora do prédio principal do governo, a Casa Branca, assim como na praça principal, Ala-too. De repente, tudo ficou muito violento. Estávamos num flat bem na esquina. Ouvimos tiros e vimos homens ocupando a via principal em direção às áreas ricas, possivelmente para saquear as casas. Nossos vizinhos não paravam de ligar para ver se tínhamos comida suficiente e para nos lembrar de não sairmos do flat. Bebemos muito chá, jogamos cartas e assistimos ao noticiário, tentando entender o quirguize e o russo.
Era por volta das 13h quando os primeiros tiros foram disparados. Pessoas arremessaram pedras e puseram fogo em carros e caminhões, guiando-os até a entrada principal da Casa Branca numa tentativa de fazer com que explodissem. A polícia revidou com gás lacrimogêneo, e armas de choque foram usadas para dispersar as multidões, o que se provou ineficaz. Alguns dos manifestantes estavam armados com Kalashinikovs, bazucas e granadas. Naquela noite, conseguiram passar pelos franco-atiradores e a tropa de choque, e finalmente invadiram a Casa Branca.
Na manhã do dia 8 as ruas ficaram relativamente calmas e, apesar do consulado ter dito para não sairmos de casa, parecia tudo tranquilo. Era caótico, mas empolgante. O estragos dos saques noturnos estavam evidentes nas lojas destruídas e janelas quebradas, e da fumaça que ainda saia da delegacia principal e do escritório da receita, que foram incendiados.
Conseguimos entrar na Casa Branca, onde os retratos que já decoraram a entrada do prédio estavam agora esmagados no chão e cobertos de vidro.
As pessoas estavam botando o lugar abaixo, saqueando o palácio. Quase conseguimos ROUBAR um livro de poesias escritas pelo próprio Bakiev, mas um cara arrancou ele das nossas mãos e empurrou a gente pra fora, onde tinha um monte de papéis, livros e móveis que estavam sendo atacados para fora do prédio. Uma pessoa tremulava uma bandeira anti-semita na janela.
Um menino de uns oito anos ficou posando de importante com um extintor de incêndio, e grupos de homens se reuniam jovialmente. Conhecemos um cara que, com um sorriso de orelha a orelha, nos forçou a tirar uma foto dos seus amigos na frente do palácio empunhando a bandeira. Ele me disse que dois de seus amigos tinham morrido, mas graças ao verdadeiro espírito quirguistanês, parecia já ter aceitado o fato.
Mais ou menos 75 pessoas já morreram, mas muita gente parece acreditar que tudo vai acalmar. A maior parte da violência agora parece vir de jovens putos da vida, sem qualquer relação com política. Pacifistas voluntários surgiram para manter a paz durante a noite e muitos tanques já chegaram – o que sugere que a ordem está sendo retomada.
Atualmente, Bakiev está escondido no sul do país tentando angariar apoio à sua manutenção no cargo. A oposição parece bem confiante no momento, e já está elaborando uma nova Constituição, mas muita gente está preocupada com a ideia de que ele vá voltar à luta.
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