Depois de Estaline e do Exército Vermelho expulsarem os Nazis para fora da Europa Oriental, deixaram o continente com fronteiras mal definidas. Ideias novas sobre quem deveria liderar o mundo começaram a surgir desde então. Os líderes dos E.U.A., URSS e Reino Unido reuniram-se na Conferência de Potsdam, na Alemanha, em 1945, para decidir como é que a Alemanha seria punida.
Depois de muita preocupação e deliberação, concluiu-se que a URSS iria assumir o controlo dos territórios que estavam perto da sua fronteira, enquanto a maioria das nações da Europa Ocidental se uniria para formar a OTAN. E voilà: a Cortina de Ferro foi criada. Nos anos seguintes, os soviéticos erigiram centenas de quilómetros de arames farpados de alta tensão e enviaram cerca de 20 mil soldados para proteger a sua imponente mega-fronteira. Foi um tempo estranho para os habitantes do bloco de Leste.
Fugir era a única opção para aqueles que não se queriam confinar ao regime comunista. E não havia tempo a perder — a Cortina de Ferro crescia cada vez mais inexpugnável a cada ano que passava. Em 1948 foram instalados holofotes e, logo depois disso, barricadas de arame farpado, cercas eléctricas, minas e outro tipo de armadilhas mortais que foram espalhadas por todos os pontos possíveis de saída. Ainda assim, mais de 150 mil checoslovacos e de outras nacionalidades decidiram que valia a pena o risco e tentaram a fuga.
Ivo Pejcvoch, do Instituto da História Militar de Praga, autor do obscuro Os Heróis da Cortina de Ferro, diz que foram utilizadas, pelos checos mais empreendedores, carruagens especiais, cavalos, trenós, andas, asas-delta e até mesmo balões, como forma de fuga. Poucos tiveram sucesso, mas Ivo diz que “é importante lembrar aos jovens como era a Europa antes de ser possível movermo-nos livremente.” Concordamos. Em homenagem à queda da Cortina de Ferro, aqui estão as formas, algumas engenhosas e outras menos engenhosas, de como alguns dos corajosos checos se separaram das “cortinas vermelhas”.
Em 1953, Václav Uhlík lançou um ataque-surpresa sobre as tropas de patrulha com o seu monstruoso “Tanque da Liberdade”. Conseguiu transformar os destroços inoperacionais de um veículo de artilharia austríaco — Saurer RR-7 — numa máquina de fuga fiável, durável e à prova de bala com dois chassis. E foi assim que Václav, amigos e família foram transportados em segurança através de três linhas de fortificação de arame farpado até à Alemanha Ocidental. A família Uhlík subsequentemente arranjou uma passagem segura para os E.U.A. e todos os seus elementos tornaram-se cidadãos americanos.
Em 1965, três amigos tentaram usar uma grua montada num camião todo-o-terreno Tatra 111 para forçar as barricadas da auto-estrada na fronteira checo-alemã. A grua foi modificada com um pára-choques dianteiro reforçado, as laterais e os painéis frontais foram fortificados, e as janelas estavam cobertas com chapas de aço com 12 milímetros de espessura. Apesar deste animal majestoso conseguir passar por três portões da fronteira, uma chuva de mais de 300 balas não permitiu que avançasse e feriu os esperançosos passageiros a poucos metros de estarem a salvo.
A partilha de boleias não criou as mamãs da classe média que apenas vivem para levar os filhos e os amigos à escola, nem os legisladores que alegam que se preocupam com o meio ambiente. Na verdade, uma versão mais subversiva foi frequentemente usada para iludir a patrulha da fronteira da Cortina de Ferro — especialmente por alemães da zona oriental que passaram pela parte Checa da Alemanha Ocidental. Para evitar que fossem detectados, os passageiros mais empreendedores apertavam-se por baixo do chassis ou atrás dos bancos. Os fugitivos que não tinham acesso a automóveis, por vezes, usavam o caminho de ferro, como o camarada na foto acima.
Sob os auspícios de construir um “cortador de terra”, Vladimir Benesv juntou no chassis de um Wartburg 331, dois motores a gasolina, dois eixos, chapa em estanho, quatro rodas, os pneus de um tractor, uma simples bateria de 12 volts, e um canhão falso de madeira com o objectivo de triturar muito arame farpado. Vladimir conseguiu pôr o seu Frankenmóvel a funcionar, mas os dois motores falharam perto da fronteira. A sua máquina tornou-se num troféu da polícia secreta.
Poucas pessoas estavam dispostas ou tinham a possibilidade de arriscar as poucas coroas checas que tinham em máquinas que só iriam usar uma vez ou em transporte para se deslocarem escondidos. Mas qualquer um consegue pregar algumas placas, e colocá-las contra o arame farpado, e pôr-se a andar para fora do território controlado pelos comunistas. Antes de gozarem com este tipo de abordagem, deviam saber que dois rapazes com idades entre os 15 e os 16 anos levaram isto a cabo em 1955.
As rotas subaquáticas eram dos caminhos mais seguros e ao mesmo tempo mais perigosos para atravessar a Cortina de Ferro. Karel Brabec, conhecido por muitos como o “Rei do Danúbio”, ganhou este apelido por nadar desde a Bratislava até à Áustria pelo Danúbio, com a ajuda de um fato de mergulho dos Counter Intelligence Corps. Foi relatado que Karel fez pelo menos dez viagens (alguns dizem que chegou a 20) até que a polícia comunista o apanhou. Foi condenado a anos de trabalho pesado. Tentar uma passagem submersa era uma questão completamente diferente: o benefício de contornar os obstáculos e os guardas da parte terrestre era muitas vezes compensado pelo facto de que mesmo a menor falha no equipamento tornaria o proscrito em comida para peixes. Tal foi o destino do desconhecido na foto acima.
Fotografias: Cortesia do Arquivo dos Serviços de Segurança, Arquivo do Museu da Polícia de Praga
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