Aldrin durante sua caminhada na Lua. Imagem: NASA
Em um auditório da Universidade George Washington, um senhor de idade aguarda pacientemente em uma fila formada atrás de um microfone, esperando sua vez de fazer uma pergunta a dois dos mais experientes cientistas da NASA sobre seu plano para levar seres humanos a Marte.
Quando chega finalmente sua vez de falar, o homem se aproxima e começa a falar sobre propostos sistemas de propulsão e expressa desapontamento pelo fato de a agência ter resistido ao seu programa até o momento. “Acredito que um outro plano seria melhor”, ele diz. Sua fala é circular, e muito mais longa do que os palestrantes gostariam. Em dado momento ele admite que o que ele está fazendo, no fim das contas, não é uma pergunta. Finalmente, ele para de falar.
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“Acho que um sim ou não não será suficiente”, diz Willian Gerstenmaier, chefe da equipe de exploração tripulada da NASA. Ele e seu companheiro de palestra riem e não abordam os comentários do homem.
O homem, Buzz Aldrin, o segundo ser humano a pisar na Lua, volta a se sentar.
O segundo ser humano a pisar na Lua.
“Um sábio amigo meu me disse certa vez que, não importa o que eu faça, eu sempre serei lembrado como o segundo homem que andou na Lua”, me contou Aldrin em uma conversa de Skype. “Eu sempre convivi com isso.”
Imagem: captura de tela do Skype
Hoje, aos 84 anos, Aldrin – ainda perspicaz mas talvez muito idealista pra uma agência que se tornou avessa a riscos depois de perder dois ônibus espaciais e as 14 pessoas que estavam neles – tem um último plano: viver até 21 de Julho de 2019, o 50º aniversário do pouso na Lua, e passar esse dia com o Presidente dos Estados Unidos, que, em seu mundo ideal, anunciará que a NASA está próxima de enviar uma missão tripulada a Marte.
“Eu esperava que todos nós três estaríamos lá nesse dia”, diz Aldrin. “Infelizmente isso não irá acontecer.”
Aldrin ainda é um herói americano, um ícone, mas ele tem cada vez mais se tornado uma pedra no sapato da NASA. Ele passou os últimos anos cutucando e fustigando a NASA, mostrando para eles sua visão sobre uma missão rumo a Marte. A cúpula “Homens a Marte”, que aconteceu em Washington, era sua melhor chance. E ele não a despediçaria.
Aldrin sentou na primeira fila de um auditório semi-cheio com cento e poucas pessoas cujo objetivo comum é colocar um pé humano no solo de Marte.
Depois de suas questões ao painel de exploração da NASA, Aldrin deu uma palestra de 40 minutos para expor seu plano de estabelecer presença permanente de humanos em Marte por volta de 2035, uma palestra que em dados momentos tratou e girou em torno de geopolítica da exploração espacial.
Construir uma colônia humana em Marte em apenas duas décadas é um plano ambicioso, para dizer o mínimo, e não é algo que a NASA demonstre interesse em fazer.
Talvez por isso Aldrin estava em Washington, falando depois que os administradores da NASA Charles Bolden e William Gerstenmaier já haviam se retirado, dirigindo-se a uma plateia que compartilha suas visões e sente sua frustração. Ele começa nos contando seu plano de eventualmente assentar bases internacionais na Lua com a China (China!) antes de eventualmente viajar até a lua marciana de Phobos.
De Phobos, ele diz, podemos estabelecer uma série de naves “circulares” que usarão a força gravitacional da órbita pra enviar constantemente suprimentos da e para a Terra. Nós iremos eventualmente assentar uma colônia permanente em Marte, ele diz.
Imagem: Jason Koebler
Está tudo explicado em seu livro, que ele estará autografando logo após a palestra, ele diz. Muitos dos grupos de estudantes da Universidade George Washington presentes estão fuçando em seus celulares ou cochilando. Em dado momento, Aldrin diz que esqueceu o que iria dizer. Em outro ele está nos apresentando seu “mais recente plano.”
“É preciso que um indivíduo, um líder de algum país desta Terra diga que nós iniciaremos permanência em outro planeta”, diz Aldrin. “Esse é um legado que permanecerá por muito tempo na história. Precisamos convencer as pessoas a fazer isso.”
Mesmo as estrelas do rock ultrapassadas têm mais respeito do que aqueles que nunca emplacaram um hit – o auditório está mais cheio na palestra dele do que em qualquer outra. Mas o entusiasmo diminui até o final, quando ele desiste de tentar explicar uma incrivelmente comeplxa linha do tempo dos planos da missão, e agradece a plateia por ter comparecido. Eles o aplaudem de pé.
Esta é a mais recente linha do tempo de Aldrin para uma missão a Marte. Imagem: Buzzaldrin.com
Nada no plano de Aldrin se alinha de forma alguma com o que a NASA já expôs sobre o seu grande objetivo atual – laçar um asteróide na década de 2020, e ir a Marte (como, e por qual motivo, não está claro pra nós) em algum momento da década de 2030. (Por sua vez, Aldrin não tem interesse na missão de caçar um asteróide. “Há formas melhores de se lidar com um asteróide do que ir até lá para buscar uma pedra e trazê-la pra cá”, ele disse.)
Eu perguntei a Artemis Westenberg, cujo grupo “Explorar Marte” convidou Aldrin a falar na conferência, se as ideias de Aldrin sobre Marte são remotamente factíveis.
“Ele realmente quer fazer. Vamos lá, ele ainda é um dos 12 [homens que pousaram na Lua], ele significa muito pra muitas pessoas. É ótimo ver que alguém fez algo grandioso e não falou ‘é isso aí, vou me aposentar’”, disse ela.
Mas de fato, a idéia dele é realizável? “Parte dela definitivamente é realizável. Mas não estou dizendo que acontecerá”, disse Westenberg. “Acredito que se você dissesse aos engenheiros para fazerem isso, a missão poderia ser feita dessa forma.”
Aldrin está decepcionado com a NASA, mas o sentimento é provavelmente mútuo. Nos painéis em que Aldrin fez perguntas aos engenheiros da NASA, ele foi sumariamente desconsiderado. Por que não falar com eles sobre Marte? Aldrin não conseguiria marcar uma reunião com alguns desses caras?
“Não estou dizendo que não falei com eles a portas fechadas”, Aldrin me disse. Mas ele também está convencido de que a agência o transformou em algo como um símbolo. O único momento em que dão atenção a ele, segundo o próprio, é a cada cinco anos, quando ele é chamado à Casa Branca pra comemorar o aniversário do pouso na Lua.
Depois da palestra de Aldrin, fui atrás de James Green, o diretor de ciência planetária da NASA, e perguntei a ele o que significa a presença de Aldrin ali. “Ele é um herói americano, um cara inteligente”, disse ele. E sobre o fato de que ele discorda da NASA em quase tudo? “A opinião é importante para nós”, disse Green.
Mais tarde, falo com uma mulher que está esperando pra encontrar Aldrin. “Eu só quero apertar a mão dele”, ela me disse. “Ele é o segundo homem que andou na Lua.”
Aldrin passará o resto de sua vida tentando assegurar que isso não é tudo pelo que ele será lembrado. “Muitos pensam que essa é uma ideia utópica, sem contato com a realidade”, disse Aldrin. “Eu tenho que sair por aí e abrir os olhos deles.”
Tradução: Stan Molina
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