Em um quarto fedendo à peixe seco, cerveja velha e tabaco de cachimbo, homens das periferias mais tristes de São Petersburgo, na Rússia, se amontoam em volta de uma televisão. Eles a assistem atentamente enquanto um ator vestido de camisa e terno bater na cabeça das pessoas com uma bengala, cena já vista dúzias de vezes pelo grupo. Lançado em 1990, o filme se chama Bakenbardy [Sideburns, em inglês, ou Costeletas, numa tradução livre] do diretor Yuri Mamin. O filme conta a história de duas gangues rivais de adolescentes – uma movida a caos e destruição, e a outra por halterofilismo e orgulho – e um grupo menor conhecido como o Clube Pushkin. Os membros dessa organização fictícia são devotos do poeta e autor russo do século XIX Aleksandr Pushkin. Conhecidos como “Pushkinistas”, sua bússola moral é supostamente norteada pelas escrituras do laureado.
O filme de Mamin gerou uma verdadeira subcultura de jovens russos devotos do Pushkin. Mas enquanto os Pushkinistas de Bakenbrady se vestem como dandies do século XIX, suas versões da vida real preferem regatas brancas, músculos enormes e tatuagens. O estilo é uma apropriação inspirada no Lyubery, um movimento de jovens nacionalistas que começou nos subúrbios moscovitas de Lyubertsy durante os anos 70 e ganhou popularidade ao longo da década seguinte–até sumir. Mas apesar de terem adotado a estética Lyubery, os Pushkinistas são rápidos ao apontar as diferenças ideológicas.
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“A coisa mais importante é o que está dentro de você, seguido pelo que está escrito em você,” diz um dos membros que preferiu não ser identificado. Ele e seus companheiros giram seus braços e levantam suas camisetas pra mostrar suas tatuagens quase idênticas com a feição do Pushkin. Alem de cobrir seus corpos com o rosto dele, eles recitam sua poesia no meio de conversas cotidianas e não se importam em arrebentar pessoas que não respeitam adequadamente o pensador.
Em Bakenbardy, os Pushkinistas lutam contra a Capella, uma gangue rival de jovens punks que pregam a luxúria e a degradação moral. Os Pushkinistas de hoje também ficam enojados pelas subculturas ocidentais – de punks a caubóis a fãs de disco gay – e são rápidos em dar o primeiro soco quando seus valores são ameaçados.
“O czar Peter, o Grande, abriu a janela da Europa pra mostrar o dedo do meio, não pra seguir a boiada”, diz Pavlik, um Pushkinista local fumante de cachimbo. “A adoração pelo Ocidente é conformismo.” Pavlik dá palestras regulares para jovens locais sobre a gloriosa história da Rússia, com ênfase no seu autor favorito. Seu método pedagógico é simples: Ame Pushkin incondicionalmente ou você toma um couro.
“Algumas pessoas dizem que somos nacionalistas, mas isso não é verdade,” diz Pavlik. “A gente só acha que os russos não deveriam gostar dos alemães, dos britânicos ou de qualquer outro, na verdade. Você deve valorizar suas raízes. Skinheads são pessoas que não acreditam em nada. E hipsters? Vamos ensinar eles a realmente amar a Rússia!”
TEXTO POR ALEKSANDRA BORODINOVA VICE RU
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR
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