Música

Pete Rock É o Pai do Hip Hop

Não tem outra forma de descrever: Pete Rock é bacana.

Entrando lentamente na biblioteca do primeiro andar de um prédio luxuoso do West Side de Manhattan, o passo do lendário produtor/DJ/rapper é calmo, tranquilo e despreocupado. Ele veste um boné cinza ajustável, uma camiseta preta e tênis. Ele senta à mesa e se recosta calmamente em uma poltrona de couro. Ela range. A única coisa que poderia deixá-lo ainda mais bacana nesse momento seria se ele estivesse mordendo um palito de dente ou, tipo, fumando um charuto. De repente, ele diz simplesmente: “Pode perguntar o que quiser, mano”.

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E é o que faço. Em nossa conversa de 30 minutos, Rock fala sobre sua última mixtape, 80 Blocks From Tiffany Pt. II, e como é trabalhar no hip hop há basicamente mais tempo do que o hip hop existe. Ele fala com clareza e foco – não é a primeira entrevista desse cara – e conta histórias sobre ouvir pela primeira vez o Jay-Z fazer um rap com a batida dele, como foi conhecer o James Brown aos sete anos de idade, e sua opinião sobre Yeezus. No entanto, um assunto que o Rock continua a destacar é como ele quer unir os mundos do hip hop – agindo como um embaixador para a velha guarda e uma figura paterna para o novo.


Noisey: O que você está tentando fazer com 80 Blocks From Tiffany’s 2?
Pete Rock: 80 Blocks From Tiffany’s, na verdade, a princípio era um documentário, um filme sobre certas áreas do Bronx e a vida de gangues por lá. O Camp Lo cresceu na mesma área, então eles me apresentaram o filme e, quando assisti, me apaixonei por ele e achei que seria um tema perfeito para nós, considerando que somos todos do Bronx. Eu queria fazer de um jeito hip hop. Parece um filme sonoro – parece uma coisa que você precisa ouvir do começo ao fim.

Como você acha que o hip hop pode ilustrar uma história?
Nós, como pessoas do hip hop, passamos por muitas coisas na vida, e esse é um dos jeitos verdadeiramente positivos de nos expressarmos sem sair matando ninguém, tá ligado? Você escuta uma música e acalma a fera e faz uma coisa positiva, ocupa a mente para fazer uma coisa boa. Esse é o principal motivo pelo qual fazemos esse tipo de música, saca, para manter as pessoas focadas. Funciona para alguns e para outros, não.

Como você acha que o hip hop reflete a sociedade hoje em comparação a, digamos, 15 anos atrás?
É muito diverso, e hoje tem uma grande variedade para se escolher – seja trap music, para tocar no rádio, underground, ou mainstream. Existem muitas facetas diferentes no hip hop hoje, e você pode dizer: “Ah, gosto desse som, desse outro som, desse som cru”. E é isso que é diferente de antes porque a gente seguia as regras. Agora, as regras estão criando uma forma de hip hop na rua. Já foi feito assim antes, mas agora é diferente, e você tem escolhas. Essa é a grande diferença do que era e do que é agora. É sempre bom misturar o velho com o novo, porque isso dá um som diferente que pode atrair as pessoas.

Com caras tipo o Joey Bada$$, que estão produzindo fitas com um som parecido com o do fim dos anos 90, você enxerga um ciclo no som?
Vejo, um pouco. Depois de passar tanto tempo ouvindo música desse novo jeito por tanto tempo – antes do que um Joey Bada$$ ou um Ab-Soul estão fazendo —, é um alívio. É revigorante ver esses caras trazendo de volta o que eles respeitam. Também é importante que as pessoas da nova geração saibam o que veio antes delas e como era feito antes.

Por que você acha que é importante?
Todo mundo aprende com alguém, tá ligado? E eu aprendi em algum lugar, peguei inspiração com outros para fazer o que faço, mas começou com cantores de soul e músicos de jazz e reggae. E aí apareceu o hip hop e pudemos mostrar nosso respeito e amor fazendo samples.

Vi o James Brown quando tinha sete anos e ele é meu artista favorito, o favorito de todos os tempos. Não tem ninguém que batalhou mais que ele, e ninguém que criou música como ele. Ele começou uma coisa nova e estava muito à frente do seu tempo. Se você buscar e escutar a música dele, ele foi o cara que criou o hip hop. James Brown ensinou, e foi o bumbo e a caixa e como isso deveria ser usado e tudo isso rolava na cabeça dele e quando apertei a mão dele, acho que ficou alguma coisa comigo.

Como foi que você encontrou com ele?
Minha mãe me levou num show quando eu tinha sete anos – eu e meu irmão mais novo, e ela nos levou no camarim para conhecê-lo e ele apertou a minha mão e desde então senti que já não era mais o mesmo. Peguei aquilo e levei comigo, e aprendi, e queria aprender mais sobre hip hop. E faço a homenagem, tá ligado? Sempre.

Para uma pessoa que faz isso há tanto tempo, como seu processo evoluiu? O que você acha de equipamentos antigos versus equipamentos novos?

Os equipamentos antigos são… Se não está quebrado, não conserte. Usamos os equipamentos antigos para dar uma sensação antiga, da qual nunca fugimos, mas os equipamentos novos são bons de certas formas, dão um som mais limpo.

Você acha que alguma coisa se perde?
Se você leva os elementos do seu jeito de fazer música com equipamentos novos, não perde nada. Mas se é um cara novo que faz música nova, tem muita coisa faltando que você precisa aprender para que todo som seja o mais completo possível. Mas tem produtores diferentes que gostam de fazer as coisas do jeito deles: Tem gente que usa samples, gente que não usa, gente que usa músicos e instrumentação ao vivo. Dito isso, gosto de misturar tudo isso, incorporando o novo e o antigo e criando um som novo com isso.

O que você acha da teoria de que o Jay Z é o primeiro rapper roqueiro?
Entendo porque alguém diria isso, porque ele não faz discriminação em termos de som para a música dele, tipo, ele chama uns caras para dar uma sensação de rock a uma batida.

Quero dizer que agora o Jay Z está lançando álbuns que ainda estão vendendo muito, mas não são inovadores da forma como, digamos, The Blueprint foi.
Ah, você quer dizer que ele é tipo um rockstar? É, quer dizer, é assim que a equipe dele está promovendo e fazendo parecer. Ninguém vai ser contra isso. Ele passou pelos altos e baixos da indústria. No começo, ninguém dava atenção nenhuma para ele, até que ele começou a fazer as coisas por conta própria. A mesma coisa que muitos outros artistas, como o Biggie e assim por diante, esses caras estavam exigindo a sua atenção.

Você acha que tem uma atitude diferente hoje no hip hop em relação a antes? Não acho que o A$AP Rocky está, tipo, exigindo que você o escute.
Quer dizer, eu falei do Jay Z. Falei do Biggie. Acho que muitos rappers provavelmente diriam a mesma coisa sobre esses dois caras. Eles se destacam na cena do hip hop. Não é para criticar ninguém, mas tipo, provavelmente eles batalharam para estar entre os melhores e isso exige muito trabalho para se alcançar, por isso eles são muito citados, tá ligado? O Nas também. Ele é meu rapper favorito. Gosto muito do que ele entrega e dos assuntos e temas que escolhe para falar.

Fazendo isso há tanto tempo, existem ideias erradas ou alguma coisa em que você acha que é incompreendido?
Como entrei nesse ramo quando era moleque, eu estava muito empolgado para fazer batidas – e não percebia que tem todo um outro lado do negócio que é o lado empresarial, que não me importava na época. Eu estava feliz por fazer música e ganhar algum dinheiro. Nunca ganhei muito dinheiro na vida, e já tive empregos normais e entregava jornais.

O que você acha de Yeezus em comparação a Magna Carta?
Adoro o Kanye West. Acho que ele é o rapper/produtor mais talentoso do momento. Ele optou por ir numa direção diferente com o Yeezus em comparação ao Magna Carta, em que dá para ouvir batidas de hip hop. O Kanye está tentando fazer uma coisa nova na música.

Dá para chamar Yeezus de álbum de hip hop?
Hip hop? Tipo, hip pop. Ele está abrindo uma onda nova de música, digamos assim. Parece que todo mundo segue direções diferentes ao tentar fazer um álbum, a única diferença entre Yeezus e Magna Carta é que dá realmente para ouvir umas batidas de boom bap que o Jay-Z tem, e, no Yeezus, não se ouve muito disso. É legal, nada contra Yeezus, só é outro som que ele está fazendo para que as pessoas saibam que esse é o novo som do Kanye. Ele é muito talentoso, e acho que, de todas as pessoas, é quem sabe fazer boom bap. Nesse álbum, não precisa ser tudo boom bap, mas dê as suas raízes para o seu povo, cara, uma ou duas músicas.

E “Bound 2”, a última música?
No álbum novo? Não tive chance de escutar essa, mas vou pesquisar e ver o que posso tirar dela. Eu apareço um minuto nesse Holy Grail.

Por que você recusou a oportunidade de fazer um rap em “The Joy”?
Uau, você sabe disso? Como você ficou sabendo disso?

Internet, mano.
[Risos.] Senti que, se fosse escrever alguma coisa com o Kanye… Às vezes demoro muito tempo para escrever e não consigo compor uma coisa numa noite só e ficar absolutamente satisfeito com ela. Despedaço milhões de pedaços de papel antes de acertar, então esse provavelmente foi um dos motivos. De certa forma, fico feliz por ter recusado, porque ele colocou o Jay-Z no lugar e faz anos que tento trabalhar com o Jay. E, caramba, ele finalmente fez um rap numa batida do Pete Rock e aí me manda um salve no verso e eu fiquei tipo “oh” e aquilo me emocionou, então provavelmente foi melhor.

Como foi o momento em que você ouviu ele te mandando um salve no verso?
Eu estava dirigindo e o engenheiro de som Young Guru me ligou e disse: “Escuta isso”. Eu não estava ouvindo direito, aí parei o carro e disse: “Aí, coloca de novo”. Ele colocou e no começo eu não sabia quem era e falei: “Quê? Aí, é o Jay Z?” E quase tive um infarto e fiquei tipo: “Uau”. Fiquei emocionado, sentado no carro no meio-fio, surtando. Foi uma das melhores sensações que senti em muito tempo.

Quais são alguns dos seus gostos estranhos em música?
Eu ouvia muito punk. Escutava Rage Against The Machine. Quando era criança, ouvia KISS.

Pete Rock ouve KISS, surpreendente.
[Risos.] Pois é, mano. Nem tudo é só soul e jazz.

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