“Tudo é melhor no Porto”, costuma dizer o jornalista Paulo André Cecílio espelhando alguma sabedoria. Chegar ao Porto depois de uma semana de calor infernal em Lisboa foi, por si só, um alívio. E também não foi complicado chegar ao Parque da Cidade, bastou ver as carreiras na aplicação do Festival. No meu caso, apanhei o 502 desde o Bolhão. Eu, seis festivaleiros e outras pessoas na sua rotina semanal.
Em 1996 este autocarro tresandaria a drogas pesadas e sentir-se-ia um choque geracional no ar, mas, em 2016, vamos todos juntos e somos todos clean. Sim, tu fumas uns “charritos” e mandas umas cenas, mas, tal como Nova Iorque, somos bem mais controlados do que fomos há 20 anos atrás. Sem ofensa, também não queria ir no autocarro e encontrar um “ressaca” que me ameaça que me espeta com a sua seringa sidosa caso não lhe desse o dinheiro. As coisas mudaram para melhor, ainda por cima vai-se vendo a cidade porque o autocarro faz uma rota porreira.
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Chegar, reconhecer e sentar. Ver os Sensible Soccers cada vez melhores, de “AFG” a “Shampom”. O ritmo do público ainda era preguiçoso e as pessoas não queriam tirar o pé do chão. Descansem, não vou fazer uma piada da Ivete Sangalo, já toda a gente fez. Nem quando o Freddie Gibbs for cancelado.
Adiante, US Girls deu esperança de uma noite mais mexida, mas foi só com os Wild Nothing que o público se deixou entusiasmar. O seu dream pop coladão aos New Order sacudiu o pó e abriu o caminho para a banda de Bradford Cox. Ainda era de dia mas as estrelas já refletiam toda a luz do concerto de Deerhunter, iluminando a cara dos presentes. A malta feia também faz boa música.

Veio uma pausa para comer qualquer coisa. Sem dúvida o Festival mais bem equipado para a prática da arte da engorda. Desde aqueles negócio gourmet de conceito, até às tascas do Porto, podemos encontrar de tudo.
E a bebida este ano também foi muito bem pensada. Cada um compra o seu copo e, no final, pode devolvê-lo em troca do dinheiro que gastou. Assim já ninguém tem de se sentar numa poça de copos de plástico. Teríamos visto Julia Holter com um rabo cheio de nojo, em vez de relva.

Lá chegou a hora dos Sigur Rós. Para uns uma das bandas mais bonitas do mundo, para outros o som de uma baleia a morrer. A chuva sentia-se levemente e temperava a calma. O silêncio imperava, toda a gente pensava na vida. Introspecção. Alguns até choraram. O palco estava cheio de luzes maradas que tornaram a festinha sónica mais calorosa. O primeiro dia estava a ser o “dia de reflexão”. O dia antes de dar tudo. O dia mais calmo. Mas depois veio o post-punk-by-the-book dos Parquet Courts e fodeu-me o artigo. Houve energia, houve vibração. Houve loops emocionantes e hipnóticos.
O Palco Super Bock transbordava com pessoas a querer fazer parte de uma energia, que só culminou com os Animal Collective. Chuva e suor. A relação à distância dos intervenientes não matou a paixão e a misturada de estilos fez o dia a muita gente. “Melhor banda de sempre”, dizia um tipo ao meu lado. Amanhã ele pode mudar de ideias mas não é esta a sensação que queremos ter num concerto? Não é isto que queremos num festival? No final, uns foram para casa e outros foram dançar em tronco nu. Hoje o motor promete ferver.






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