Mulher Melancia e Marcelo de Lima
Antes de produzir o clipe “Sou Foda”, dos Avassaladores, o Marcelo de Lima filmou Vadias Casadas. É dele a Amigo Produções, em Nova Iguaçu (RJ), que começou como uma produtora pornô em 2002 e hoje é responsável por todos aqueles clipes de funk gravados em chroma key e carregados no After Effects que você já viu por aí, de “Vukadão”, do MC Vuk, e “Bicicleta Humana”, dos Mulekes Piranha, a “Monstro DJ”, do MC Gringo, e “12 Horas”, do MC Créu. Todos. Já são uns 200 deles, alguns ainda inéditos — antes de serem jogados na rede, os vídeos são lançados em edições periódicas do DVD portifólio Funk Frenético, sucesso de vendas no Uruguaiana e para-raio de nazistas nos comentários e telefonemas pelo Brasil.
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Ainda assim, o canal da Amigo no YouTube já tem “uns dois milhões de acessos”, o que fez com que o próprio site procurasse o Marcelo pra tentar engatar anúncios. “Era desvantajoso pra mim, então não aceitei. Agora eles ficam achando motivos pra tirar a gente do ar. Já devo estar no terceiro perfil.” Fora isso tudo, na conversa aí embaixo ele ainda fala sobre o brainstorm das prés e pós produções desses filmes, do motivo pelo qual não perde tempo com trolls da alta cultura e, em primeira mão, sobre como os Avassaladores pagaram com traição a quem sempre lhes deu a mão.
Vice: Como a Amigo Produções começou?
Marcelo: Eu comecei a produtora de um jeito muito engraçado, cara. Tinha dois amigos que eram atores pornôs em São Paulo, e eles queriam fazer um filme. Você deve conhecer, é a Lorena [Aquino], a “Garota do YouTube”, e o MC Sandrinho. Eu já fazia produção, só que nunca tinha feito nada na área artística – fazia casamentos e esses negócios. Daí produzi o filme deles, que ficou muito bacana. Mas por acaso eles eram MCs no Rio de Janeiro, aí pediram pra eu produzir também o clipe deles. Fiz, jogamos na internet, o pessoal gostou e aí eu comecei, produzindo, produzindo, produzindo. Eu estudei Cinema, então antes fiz várias pontas em grandes empresas até montar a Amigo Produções, tipo a Dragão Bolado — que agora tá meio parada porque ela faz mais vídeo ao vivo, que tá caindo de moda, só quem continua com isso é a Furacão. O nome veio justamente por causa disso, comecei a ser indicado de amigo pra amigo — já conhecia os MCs. Antes eu fazia somente para conhecidos. Hoje eu estou aberto para quem aparecer. Eu de diretor e minha esposa de fotógrafa.
Mas ainda faz pornôs?
Não faço mais porque direcionei mais pro funk mesmo. Talvez se continuassem a procurar eu faria. Na época fazia mais aqueles caseiros, que chamavam mais atenção. Até joguei um ou dois na internet, os Vadias Casadas e A Mulher do Vizinho, só que, pra ser sincero, nem em casa tenho eles mais, até mesmo porque minha esposa me deu um toco nisso, daí por ela me ajudar muito – no trabalho e nessas coisas todas –, acabei acatando e parei de vez. Até os que eu tinha, não vou dizer que eu dei sumiço, mas nem sei onde foram parar.
Quantos clipes de funk a Amigo já produziu?
De três em três meses eu lanço um DVD. Cada DVD tem 40, 42 clipes inéditos. Da linha Funk Frenético eu tô lançando o terceiro no mês que vem, então só daí são uns 120. Mais uns 40 da Dragão Bolado… Isso fora os avulsos e parcerias — aquele do Créu, que é meio desenho animado, foi em conjunto, por exemplo. Ah, uns 200 clipes, por aí, que eu já joguei na rua.
E como funciona? OS MCs te procuram, você procura eles… E as ideias, são suas, deles ou em conjunto?
São mais eles que me procuram, só que, na maioria das vezes, de cabeça vazia. Se eles chegassem com alguma coisa, já ajudava um pouco, mas chegam só com a música e querem gravar. Isso é um problema, porque chega uma hora que você não tem mais criatividade. Não vou dizer que sai 100% da minha cabeça, porque tenho uma esposa que dá palpites, na hora que eu tô gravando pergunto o que eles pensaram quando fizeram a música…. “Ah, pensava naquela filha da puta que me traiu”, então vou lá e trabalho nessas coisinhas. Vou anotando essas imagens, e na hora dessa edição a gente senta, pensa em como vai fazer e depois joga uns efeitos de After Effects.
Mas no clipe “Vuk Vuk”, por exemplo. A idéia de se fantasiar, de quem foi?
Ele já tinha a idéia de fantasia. Ele diz que aquele chocalho que ele tem na mão foi vendido por um pajé amigo dele… Aliás, o Vuk é uma história muito engraçada. Já conheço ele há muitos anos. Ele era motoboy, e vinha pra minha casa trazer os MCs. Só que o cara tem um vozeirão – aquela voz que você escuta não é produção, é purinha dele –, então ele se lançou como tenor, só que não deu muito certo. Assim, ele começou a aparecer, mas não foi o boom. Quando lançou a música Vuk Vuk ele estorou! Tem essa e o Vukadão, em que ele é um sultão.
Quanto custa um clipe feito por vocês?
Assim, quando é pro Funk Frenético, eu cobro R$ 400 cada clipe. Porque eu tenho o estúdio, a computação gráfica, consigo marcar vários MCs pra gravar tudo num dia só, e isso diminui o custo. Já quando não é pro DVD, que vou ter que rodar um dia, dois, três, com um MC, eleva o custo. O “12 Horas”, do Créu, foi um dos mais caros, por exemplo. Custou uns R$ 1.000, mas acabei colocando no DVD no final das contas.
E quanto tempo demora, mais ou menos, pra ficar pronto um clipe desses? Por exemplo o dos Avassaladores.
Cara, esses Avassaladores foram a coisa mais engraçada do mundo. Fiz num dia, numa dessas sessões que marquei. Normalmente marco uma sessão no estúdio, pra fazer aquela computação gráfica, o chroma, e depois vou pra rua. Mas no caso dos Avassaladores, o empresário chegou pra mim – que na época era o Fabinho, do Bonde da Oslkey –, e pediu pra eu gravar os moleques. “Grava esses moleques aí, que eles tão me enchendo o saco. Eles são meus vizinhos, querem que eu seja o empresário deles, e tão enchendo meu saco. Dá um jeito aí de ajudar eles. Faz um negócio qualquer só pra colocar a imagem deles no DVD, quebra esse galho pra mim.” E eu fiz. Rapaz, antes eu tivesse me preparado pra uma produção mais forte. Os caras estouraram. Inclusive depois que estouraram viraram as costas pra quem ajudou eles. Traíram o Fabinho por uma moto. Um cara veio, chegou falando: “dou uma moto pra cada um de vocês e vocês vêm trabalhar comigo”, e eles foram. Deram uma punhalada bonita pelas costas. Mas o funk tem essas coisas curiosas, que é cobra comendo cobra, mas a cobra que te come hoje amanhã pode te ajudar.
Você já deve ter visto os comentários. Muita gente acha seus trabalhos toscos. Concorda?
Eu não acho. O Catra virou pra mim um dia e falou: “Cara, sabe por que vocês tão vencendo na vida? Porque vocês são descaralhados. Isso que eu tô gostando em vocês”. Então a gente não segue muita regra de fazer tudo certinho e bonitinho, não. Vem na cabeça, a gente joga. Alguém deu um palpite, a gente joga. Esse é um tipo de coisa que eu gosto de fazer. Os caras gostam de trabalhar comigo justamente por causa disso. E, assim, a gente recebe muitos comentários bons de quem é funkeiro, e muitos ruins de quem é roqueiro. Roqueiro odeia funk. Além de ele odiar funk, eles são racistas, porque deixam cada mensagem… Passam trote direto. Eles me ligam achando que quando falar vai falar com o artista, entendeu? Aí vem chamando de “preto”, “safado”, “filho da puta”, “preto tem que morrer”. Um dos recordistas de discriminação, se você olhar, é Avassaladores. Eles são os mais odiados. E também vem muito de paulistas. Assim, por mês eu devo receber uma ligação, de fora do Rio de Janeiro, sem ser de São Paulo. E umas 40 ou 50 de São Paulo. De racismo, me xingando. Assim, cada um tem um gosto, mas eles não ligam pra falar mal do funk, e sim pra falar mal da pessoa. Se ligassem pra falar: “esse negócio de funk não tá com nada”, tudo bem.
Já tomou alguma providência por isso?
Sinceramente, cara, de repente um dia posso até fazer isso, mas hoje penso da seguinte forma: tenho pouco tempo. Nosso dia só tem 24 horas, e preciso usar cada segundo pra produzir, gravar e editar. Então essas pessoas não merecem que eu perca meu tempo. Se eu for perder meu tempo com pessoas que tem a cabeça menor que o cérebro de uma formiga, deixo de produzir, botar clipe na rua…
Agora me explica uma coisa. Eu seguia o canal de vocês no YouTube, mas um dia fui entrar e não estava mais lá. O que aconteceu?
O YouTube quis fazer uma negociação comigo. Queriam colocar anúncios nos meus vídeos, e iam ganhar acho que uns R$ 20 reais por cada acesso. Só que iam me repassar somente um centavo. Falei não, pô, a minha página tem quase dois milhões de acesso e eu vou pegar um centavo só? Queria pelo menos R$ 1. Continuaram insistindo, não aceitei, não dei mais idéia, aí qualquer coisinha… Por exemplo, outro dia fiz um vídeo que eu peguei uma imagem de um vídeo do próprio YouTube. Disseram que meu vídeo era pornográfico e tiraram do ar. Mas o vídeo que usei pra fazer esse clipe ainda tá lá! Não é ‘pornográfico’. Então já estou com a terceira página. Toda hora eles cancelam a minha, de raiva, vingança, implicância – não sei. É isso que eles estão fazendo, alegando que meus vídeos são pornográficos por causa desse clipe que fiz pro Kiko.
Sinceramente, você acha todas as músicas que produz boas?
Existe aquilo, né: nem todas são muito boas, senão estouravam. É complicado de falar, mas elas têm público. Quando você acha que menos vai dar pé… Igual às do Gringo e do Mr. Dogg. Quando começou a tocar no Uruguaiana o pessoal: “Pô, para aí, isso aí é comédia. Volta isso aí pra agente assistir de novo”. Engraçado que quando teve o lançamendo do primeiro DVD, quando colocaram na banca na Uruguaiana, os caras falavam “ih, cara, que troço maneiro. Só pode ser feito em São Paulo, aqui no Rio não tem isso”. E a gente atrás. Aí o cara da banca puxou o DVD e tava escrito “100% feito em Nova Iguaçu”. Eles gostaram.
A quanto é vendido esse DVD?
Na verdade a gente põe ele na rua pra disseminar a imagem do MC, entendeu? Faço meia dúzia de cópias pra cada MC que tá no DVD, e eles mesmo começam a espalhar isso aí. Quando se contrata alguém, geralmente pedem foto, disco, clipe… Então quando a gente gerou o DVD Funk Frenético, foi com a intenção de o MC ter o que levar. E o bom disso é que quando o contratante fosse assistir, não assistiria só um, e sim mais 39, então cada um faz a sua propaganda e de mais 39. O DVD é uma revista eletrônica pra disseminação de imagem. Mas que de repente virou item de mercado. Só fiquei sabendo que tavam vendendo na Uruguaiana porque me ligaram falando que tava tudo esgotado. Aí fui pro camelô e não entendia nada, cheguei lá a galera pedindo autógrafo, falando que era o maior sucesso, que vendia muito.
Uma última dúvida. O MC Gringo é de onde?
Ele é alemão mesmo! O turista, quando vem, se encanta pela favela. Aliás, ele é fenômeno na Argentina, cara. Argentina, Bolívia, Chile. Com a “Monstro DJ”, que inclusive ele leva pelo Brasil todo fazendo propaganda do jornal Meia Hora.
ENTREVISTA POR BRUNO B. SORAGGI
FOTOS: ACERVO PESSOAL E REPRODUÇÃO
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