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Imagine que você é um skatista ou um entusiasta das rodinhas e aguarda ansiosamente uma nova edição de sua revista preferida. Aí, você percebe que a capa da publicação traz dois skatistas se beijando. Pois bem. Nós estamos em 2013 e, mesmo assim, os leitores da Vista se dividiram ao ver a ilustração da edição 50, feita pela Dea Lellis. Na fanpage da revista, há quem ache daora, aplauda de pé e diga ser um marco na história do skate nacional. Outros choramingam coisas do tipo “pô, tem tanto skatista comendo pão com mortadela, se esfolando pelas ruas, e vocês estampam a capa com dois caras se beijando?”.
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O fotógrafo Fernando Martins Ferreira foi convidado a assumir as rédeas dessa edição especial e, exatamente por isso, bati um papo com ele por telefone para sacar (ou tentar) a caretice alheia.
VICE: Você imaginou que a edição 50 da Vista geraria toda essa polêmica?
Fernando Martins Ferreira: Eu imaginava que pudesse ter alguma repercussão negativa porque o pessoal do skate cobra uma determinada conduta. Especialmente da mídia. Mas o que me surpreendeu mais foi o grau da repercussão. O skatista se acha muito diferente, muito à parte da sociedade, mas reproduz doutrinamentos exatamente iguais a todo mundo. Ele é extremamente homofóbico e machista.
Como surgiu a ideia da capa?
No meio do skate se fala muito no “skatista de verdade” e se usa isso para criar hierarquias. Eu e meus amigos temos falado bastante sobre o tema e essa capa foi uma forma de começar a discutir isso. O que me interessou pelo skate no final dos anos 1980 foi justamente a abertura ao diferente que esse universo tinha e a rejeição a cartilhas e regras. Era onde muitos que não se achavam parte de nada se encontravam. Não por acaso, skatistas sofreram preconceito por anos. E o que vemos hoje é a reprodução, por parte de alguns skatistas, do mesmo padrão de comportamento que sofremos. Algo tristemente normal, mas que acredito que precisa ser lembrado. Não adianta se sentir orgulhoso por ter transposto algumas barreiras se logo depois você passa a construir outras. Quando a Vista me convidou para ser editor convidado, vi uma boa oportunidade de falar sobre isso. A homossexualidade é um tabu enorme no skate. Só se conversa sobre o assunto pejorativamente. É algo, aliás, muito comum: ver skatistas homofóbicos julgando a todo tempo quem é ou pode ser gay. A capa da Vista é somente uma sugestão. O que as pessoas veem está na cabeça delas. Despertar para isso já é uma conquista.
Como foi discutir a capa com a equipe da revista?
Todo mundo curtiu logo de cara. A Vista sempre foi questionadora. Ela faz isso há 10 anos. Tem muita gente que disse “Eu não sou homofóbico, só não gostei da capa porque não tem manobra”. De cinquenta edições, dá para contar na mão as capas que tiveram manobra.
É. Muita gente diz que não está sendo homofóbica, mas acha que como a revista tem poucas edições ao ano, outros temas poderiam ser aproveitados. Será que as pessoas estão com vergonha de dizer que não curtiram e pronto?
A gente sempre vai dever algum tema. Sempre tem alguma coisa para ser falada. Falam que isso não é importante, não é relevante para o skate. Claro que é.
Valeu, Fernando. E parabéns pela capa.
Siga a Débora Lopes no Twitter: @deboralopes
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