Realidade virtual é uma questão de experiências imersivas. De terapias que tratam transtorno de estresse pós-traumático a noticiários que nos transportam para zonas de guerra, a RV (a sigla, saca?) rompe com as maneiras como vivenciamos o mundo. Quando se acrescenta cheiros e toque à mistura, fica ainda mais difícil diferenciar a realidade da ilusão. E eu pude provar numa espécie de cineminha de quatro sentidos.
“O que é realidade para você?”, perguntou um homem alto quando adentrei uma cabine minúscula na entrada do cemitério Tower Hamlets, no leste de Londres, na Inglaterra. Charles Michel, chefe residente e pesquisador do Crossmodal Research Laboratory, da Universidade de Oxford, estava prestes a me induzir a uma experiência cinemática multissensorial de RV chamada “the Feelies“.
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Ele me conduziu por uma escadaria estreita até me deparar com duas portas: uma chamada Za’atari (o nome de um campo de refugiados na Jordânia) e a outra, Nova Iorque, nos Estados Unidos. “Confie em nós e se divirta”, disse Michel, antes de me deixar nas mãos de um “técnico sensorial”, que colocou um capacete de RV em mim e me conduziu às cegas pelas ruas nova-iorquinas.
Quando entrei na sala, lembrei que não tive experiências muito boas com RV no passado. A última vez que testei, numa simulação de rapel que integrava uma propaganda turística da África do Sul, fiquei pendurada em uma corda de segurança, balançando. A experiência foi pixelada e atordoante.

Os artistas recriam a experiência de se inclinar sobre um prédio para os participantes. Créditos: Anne Albertini
Com a RV comum, o espectador é projetado em um mundo com visual diferente; Feelies vai além e reforça a experiência com cheiros e toques. Odores reais, ligeiras flutuações de temperatura e outras sensações táteis me acompanharam no mundo virtual ao passo que JR, um artista francês, me guiava pela cidade. O filme que servia de base para a experiência chamava RV Walking New York, criado pela produtora Rvse.works e dirigido por Chris Milk.
Uma hora me senti como se voltasse a ser criança. Agarrei o guidão de uma bicicleta e pedalei por grandes avenidas enquanto meu banco chacoalhava. Em outro momento, parecia que eu estava levitando sobre o Times Square ao passo que um helicóptero ensurdecedor lançava rajadas de vento no meu rosto.
Em Za’atari, o clima foi outro. O filme Clouds Over Sidra, financiado pelas Nações Unidas, narra a história de uma garota síria em um campo de refugiados na Jordânia. Em contraste com Nova Iorque, senti areia sob os meus pés, a temperatura mudou e achei os cheiros mais viscerais. Numa cena, eu estava ao ar livre e gotículas de chuva fria pingavam sobre meu corpo. Em outra cena, senti o cheiro de temperos típicos do Oriente Médio enquanto a família da garota jantava.

Charles Michel faz “chover” sobre as cabeças dos espectadores. Créditos: Anne Albertini
A Feelies, explicou Michel, foi inspirada pelo romance de Aldous Huxley Admirável Mundo Novo e a Sensorama — uma máquina dos anos 1960, um dos primeiros exemplos conhecidos de tecnologia multissensorial. A ideia era intensificar a imersividade do mundo aproveitando todos os sentidos.
“Às vezes você vai ao cinema e compra pipoca, e isso oferece uma experiência saborosa, mas não está conectada à experiência da tela”, disse Michel.
Ele criou as experiências olfativas, táteis e de movimento para a Feelies com a ajuda do perfumista Nadjib Achaibou e um grupo de técnicos sensoriais.
A experiência toda é conduzida em duas cabines pequenas — Michel me contou que ele e sua equipe tentaram criar uma “bolha sensorial” que fizesse as pessoas acreditarem que estão mesmo em Nova Iorque ou na Jordânia.
“Aqui adaptamos o cheiro ao filme, mas seria incrível adaptar um filme ao tato ou olfato.”
Para criar os cheiros “frescos” de Nova Iorque, Achaibou contou que usou um misto de moléculas chamadas aldeídos, que oferecem tons afiados, limpos e metálicos. “Ao misturar isso com um pouco de citrino e coentro, projetei minha interpretação de frescor”, disse ele. Para Za’atari, Achaibou usou a receita algeriana de sabonete de sua mãe para os alimentos do filme, e cominho com moléculas de jasmin e rosas para essências mais úmidas e térreas. Ele descreveu os cheiros que criou como “mais emocionais” dadas as circunstâncias difíceis que as pessoas enfrentam no campo.

Nadjib Achaibou conduzindo um participante na experiência. Créditos: Anne Albertini
Tanto para Achaibou quanto para Michel, que fazem parte de um grupo gregário de artistas e cientistas chamado “crossmodalists”, a RV multissensorial é uma maneira de derrubar as barreiras entre os cinco sentidos.
Agora, Michel e Achaibou planejam customizar métodos olfativos, cinéticos e táteis para um filme próprio.
“Aqui, adaptamos o cheiro ao filme, mas seria incrível adaptar um filme ao tato, ou olfato”, disse Achaibou.
Michel quer fazer um filme que aborde e critique o consumo. “Não estamos nos dando conta do quão importante é comer menos carne; o aquecimento global é causado, em parte, por aquilo que escolhemos colocar na boca “, disse ele. “E se pudéssemos fazer um filme em que o espectador prova a carne, mas de uma maneira significativa — e se ele for confrontado pela morte do animal, por exemplo?”
Em referência ao trabalho do grupo com Za’atari, a dupla visa destacar a capacidade do cinema multissensorial de RV para evocar mais empatia por parte do usuário do capacete.
“É um tipo de experiência significativa”, disse Michel. “É alimento para a alma, de certa forma.”
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