O Transborder Immigrant Tool em ação. Não é muito atraente, mas tem o poder de guiar com segurança imigrantes que vão do México para os EUA. (Foto por Ricardo Dominguez))
Durante as últimas duas décadas, Ricardo Dominguez tem utilizado a eletrônica e a internet para encher o saco de praticamente todas as autoridades de alto escalão dos EUA. No fim dos anos 90, seu grupo performático ativista EDT (Teatro dos Distúrbios Eletrônicos) criou um website participativo de bloqueio de redes chamado FloodNet, que permitia a qualquer pessoa com conexão de internet congestionar os sites oficiais da Patrulha de Fronteira, da Casa Branca, do G8 e muitos outros, tornando-os inacessíveis. O Departamento de Justiça dos EUA retaliou com um ataque eletrônico ao EDT, que tinha como objetivo desestabilizar o grupo e interromper sua intromissão virtual. Como qualquer punheteiro de teorias conspiratórias sabe, o governo não pode utilizar recursos militares contra civis sem declarar a lei marcial—esse é o trabalho dos agentes da polícia e do FBI.
Dominguez, um simpatizante dos zapatistas e amigo íntimo do subcomandante Marcos, alega que as ações online realizadas pelo EDT foram mais experiências de desobediência civil eletrônica do que atos reais de sabotagem. O trabalho deles gerou protestos físicos e virtuais pesados contra o governo mexicano entre 1998 e 1999 e atraiu mais de 100 mil participantes. Mas seu projeto atual—o Transborder Immigrant Tool—tem como objetivo enraivecer um espectro muito mais amplo do populacho norte-americano. Ao equipar celulares Motorola baratos com GPS e uma bateria de aplicativos, Dominguez pretende ajudar imigrantes ilegais a completarem travessias de fronteira de forma segura, sem serem mandados de volta pela Patrulha de Fronteira nem tomarem um tiro na fuça dado pelos “patriotas” norte-americanos.
O objetivo principal do Transborder Immigrant Tool é aumentar a segurança durante a travessia, apontando aos imigrantes rotas seguras, abrigos, comida, água e simpatizantes prestativos. Com o aumento recente de pessoas ingressando em milícias e o anúncio do governo Obama da redução do número de agentes da Patrulha de Fronteira para o ano que vem, tudo indica que vamos testemunhar um confronto sem precedentes. E Dominguez não poderia estar mais satisfeito com o tanto de merda que ele está prestes a jogar no ventilador.
Vice: Como você se envolveu com desobediência civil eletrônica?
Ricardo Dominguez: Nos anos 80 eu era membro de um grupo chamado Critical Art Ensemble. Escrevemos uma série de livros publicados nos anos 90 que especulava o que o futuro, e principalmente a computação, poderia trazer. O centro das nossas especulações era que veríamos o surgimento de três pilares diferentes do capitalismo nos anos 90: capitalismo digital, capitalismo genético e capitalismo nanotecnológico. Decidimos que não iríamos investigar apenas o aspecto artístico desse capitalismo emergente. Também queríamos intervir como artistas-ativistas em cada uma dessas áreas. Desenvolvemos o conceito de desobediência civil eletrônica como forma de mediar o surgimento do capitalismo digital. Alguns membros do grupo chegaram a ser presos. Um deles, Steve Kurtz, foi julgado em 2004. O Departamento de Segurança Nacional considerou o seu uso de bactérias não patogênicas em instalações em museus uma ameaça bioterrorista.
Parece sinistro.
Mas isso tudo também teve algumas consequências positivas. Em 2000, fui convidado para liderar um projeto no Calit2. (Instituto de Telecomunicações e Tecnologia da Informação da Califórnia) da UCSD (Universidade da Califórnia, San Diego) e estou trabalhando lá desde então.
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Que tipo de desobediência eletrônica levou o Departa-mento de Justiça a travar uma “infoguerra” com o grupo EDT?
Isso começou quando conduzimos nosso maior projeto, o Swarm Action, que era um ataque participativo contínuo de recusa de serviços (DoS) que acontecia principalmente no nosso site thing.net. Ele permitia a qualquer pessoa com conexão de internet congestionar várias entidades governamentais. Criamos um JavaScript que basicamente acionava o recarregamento de páginas dos sites sem parar, tornando-os inacessíveis, ou pelo menos limitando suas utilizações. Já estávamos disponibilizando o programa há um tempo quando o Pentágono reagiu em setembro de 1998. Eles usaram uma “arma de guerra de informação”—pelo menos é assim que eles a chamaram—contra o nosso servidor que hospedava o thing.net em Nova York. Nossos acessos eram simplesmente redirecionados para uma página vazia, que ia abrindo vários pop-ups e nos obrigava a reiniciar o computador.
E por que a resposta do governo para os ataques DoS foi considerada ilegal?
Foi uma coisa inédita porque existe uma lei criada em 1878, a lei do Posse Comitatus, que diz que o governo dos EUA não pode usar a força militar em protestos organizados por civis. Qualquer interferência deve ser feita pela Polícia local ou pelo FBI. Nós testamos esse nicho e perdemos, mas também ganhamos, pois lançar esse tipo de ataque contra um servidor civil foi o equivalente a um B-52 bombardear um grupo de protestantes na Wall Street, pelo menos legalmente falando. O Berkman Center for Internet & Society de Harvard entrou em contato conosco para saber se queríamos processar o Pentágono. Achamos que seria interessante, mas preferimos nos aperfeiçoar e distribuir o kit distúrbio para quem quisesse usá-lo.
De uns anos para cá você vem trabalhando no Transborder Immigrant Tool que, ao que tudo indica, vai ser praticamente uma dedada em milhões de pessoas—tanto civis quanto entidades governamentais. Qual foi o impulso para esse projeto?
Meu laboratório de pesquisas no Calit2 se chama Laboratório BANG, que significa Bits, Átomos, Neurônios e Genes. Desde que estou em San Diego tenho trabalhado muito no desenvolvimento do que chamamos de tecnologias de distúrbio de fronteira. Tem outro professor aqui na universidade, Brett Stal-baum, que adora viajar pelo deserto, mas não tem senso de direção. Então ele desenvolveu uma ferramenta que chamamos de Virtual Hiker Tool—um GPS que você pode usar no pulso que te dá as coordenadas para trilhar os caminhos mais bonitos no dia da caminhada.
Como artista-ativista, qual potencial você viu na Virtual Hiker Tool, que possa tumultuar o protocolo padrão de cruzar a fronteira EUA-México?
Achei interessante o GPS deixar de ser um aplicativo urbano para ser usado na fronteira natural. Estou sempre interessado em como transformar essas tecnologias onipresentes e configurá-las em direção a outras questões e distúrbios, como gosto de chamá-los. E, claro, a fronteira está bem lá. Sabemos que as pessoas que fazem a travessia morrem principalmente porque se perdem ou ficam sem água. É a estrada do diabo, e tem sido assim por mais de 500 anos.
Como funciona esse dispositivo?
Vimos um celular Motorola i455, que custa menos de 30 dólares, e sai por menos ainda no eBay, e que vem com um aplicativo de GPS gratuito. Conseguimos desbloqueá-lo e criar um sistema de navegação simples. Também conseguimos adicionar outras informações, como onde encontrar água deixada pelos Border Angels, onde encontrar os centros de ajuda Quaker, o quão longe está a estrada—coisas que realmente beneficiam os indivíduos que estão cruzando a fronteira
Quando vai estar disponível para uso?
Estamos finalizando a etapa tecnológica, então o próximo passo, e o mais difícil, será interagir com comunidades ao Sul da fronteira: ONGs, igrejas e outras comunidades que lidam com pessoas que se preparam para fazer a travessia. Como treiná-las para utilizarem essa ferramenta? Qual a metodologia adequada? Essas serão as questões mais delicadas e complicadas do aspecto, digamos, social do projeto.
Você não tem medo de irritar as milícias anti-imigração?
Uma das primeiras coisas que fizemos no Laboratório BANG em 2005 foi interferir no Minuteman Project—organização de ativistas norte-americanos que monitora a fronteira para impedir a entrada de imigrantes ilegais no país. Eles ficaram bem bravos, pois além de termos realizado ações públicas contra eles, estávamos apoiando os imigrantes. Eles sabem perfeitamente quem somos e a que viemos. E assim que entenderem o Transborded Immigrant Tool—e somos bem transparentes em relação a ele—não vão gostar nada.
Você deve ser o pior pesadelo deles.
Acho que não vão ficar muito felizes conosco, mas não estamos nos escondendo. É uma ferramenta de segurança. Não tenta resolver as ansiedades políticas dessas comunidades ou as inadequações de uma fronteira fictícia para uma suposta comunidade de livre mercado. Mas, novamente, não é uma resolução política e sim uma ferramenta de segurança. É isso o que tentamos fazer.
Em quais outros projetos vocês estão traba- lhando?
Temos um laboratório onde trabalhamos com aplicativos similares que utilizam nanotecnologia e laboratórios onde ensinamos pesquisadores sobre desobediência civil e tecnologias de distúrbios de fronteira. Por exemplo, um dos nossos pesquisadores desenvolveu recentemente um telefone público que se conecta a um sistema gratuito de Skype. Quando o Departamento de Segurança Interna dos EUA joga os trabalhadores mexicanos de volta ao lado mexicano da fronteira, eles terão esse telefone para ligar para suas casas ou para onde quiserem. Mas todos os projetos estão interconectados—do Critical Art Ensemble aos distúrbios eletrônicos, ao trabalho que estou fazendo no Laboratório BANG. É tudo uma matriz central de investigação e performance, que de forma inesperada se tornou muito útil.
Você às vezes diz para si mesmo, “Uau, não acredito que o trabalho da minha vida foi de algo que deixava o governo norte-americano de cabelos em pé a um projeto legitimado academicamente”?
É, acho que sim. Não sei bem como interpretar isso, mas o que posso dizer é que ganhei muito respeito. Sou um professor adjunto, o que era totalmente inesperado se considerarmos os projetos que realizei nos últimos anos. Acho que poderia dizer, “Tem algo estranho acontecendo, e não sei ao certo o que é”, mas com certeza espero que isso gere alguma mudança positiva na forma como pensamos em relação a fronteiras e a outras comunidades. Não é uma questão de alterar as fronteiras, mas abrir espaço para novas formas de comunicação e compreensão.
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