Tacos Tortos e Aros Arregaçados

Semana passada fui assistir a uns jogos de bike polo no parque do Ibirapuera. Talvez você já tenha visto alguma coisa sobre essa galera por aí, de brinks comparando aquilo ao polo do Abílio à brinks comparando aquilo ao polo do Rico. Tudo muito espirituoso e cortês, que no rolê também tem uns apelidinhos e quem dê nome às bicicletas. Mas da égua pra trégua faltava um tr00, daí que quando o Pablo, da Tag and Juice, me deu a opção de aparecer “ou na terça” [eles se reúnem duas vezes por semana] — “quando o jogo é mais leve” –, declinei, muito cavalheiro. Queria ver era sangue, suor e lágrimas, metal retorcido, incisivos trincados e disputa alucinante, e plateia e brigas e glória — MILFs de chapéu também valiam. “Beleza, aparece lá na quinta às 21h, então, que é quando o pessoal começa a chegar.” Peguei meu brandy e fui. Brinks!

Os jogos acontecem perto da praça do porco. Cheguei lá um pouco antes, e o Pablo foi pontual. Apareceu quando ainda rolava um futebol na quadrinha, pessoal com quem disse nunca ter tido problema (“se eles estiverem jogando, vamos esperar, assim como se estivermos jogando, eles vão esperar. Tem essa coisa de boa vizinhança que faz parte de um contexto de leis que não existem, mas existem”), e me recebeu com uma cerveja (“hoje eu só trouxe um six pack. Geralmente é o Netão que traz o isopor, mas hoje ele não vem. Nem o Terror, que traz o som”). Álcool e música podados, também não vislumbrei coroas (humanas) enxutas, então pra que toda uma frustração de má sorte não viesse à tona antes que as partidas — e porradas e fraturas expostas e gangrenagens — começassem, resolvi perguntar das regras.

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A saber: são três contra três, cinco gols ou dez minutos. Marcou o quinto, ganha; apitou o cronômetro, sai quem tem menos pontos. Não existe goleiro fixo — cada time se arruma como preferir. É proibido encostar o pé no chão e trocar o taco de mão. Vale firula, “passar bola por debaixo do quadro”, jogar pro alto — pra fazer gol, só batendo com o taco tipo martelo –, só não valem entradas de frente (“a gente pega pesado com quem joga pesado. É tipo o boxe, no sentido de você dá e você toma”) e pediu falta parou (“é tipo um futebolzinho”). Pra escolher os times, os interessados põe seus tacos no meio da quadra. Estes são misturados e depois atirados, três pra cada lado, aí cada um acha o seu. Não são obrigatórios o uso de capacete nem nada, “vai da pessoa. Cada um traz seu equipamento. É tipo tênis.”

E tipo uma suruba, valeria homem com homem, mulher com homem, enfim, aceita-se todo mundo — não perguntei se mesmo com AIDS, mas segundo o Pablo é um ambiente “democrático” –, ou seja, qualquer magrela é bem-vinda. Como no caso do Johnny, chefe de cozinha, quarta vez jogando e único de mountain bike. “Mas vou correr atrás agora, quero mudar. Só que primeiro tenho que reaprender a andar, porque fixa é bem diferente”, lamuriou. Motivo simples: “A fixa leva vantagem porque você tem mais controle de tudo e tem menos coisas pra quebrar — não tem freio, nem marcha. Mas a maioria das bikes aqui são meio frankenstein, com guidão de uma, quadro de outra… Você vai adaptando, mesmo porque ninguém traz a menina dos olhos pra jogar [quase todos eles têm mais de uma em casa]. Geralmente é uma só pra isso. Se quiser jogar de BMX pode jogar”, contou o Pablo.

De resto, é improvisação. “Aqui é tudo for fun, esquece toda essa burocracia dos outros esportes, de federações e tal. Na Europa e Estados Unidos, onde rolam uns campeonatos, até tem mais regras, mas aqui por enquanto estamos felizes de conseguir ter pelo menos dois times pra poderem jogar, mesmo porque é todo mundo amigo.” Os tacos são feitos com cabo de esqui e uma outra parada “muito maleável e resistente, usada em tubulações de gás. Com esse material, um taco pode durar meses”. Nunca PVC, “porque você bate no chão e quebra”. “Só agora uma empresa tá começando a fabricar tacos específicos, mas tem muita gente inventando algo que não precisa ser inventando quando já acharam uma solução que funcione”. A bolinha é a mesma usada no hóquei de rua, adequadas às diferentes temperaturas. Como tenho certeza ser do seu interesse, a que eles usavam naquela noite era a “warm, própria para climas secos e de temperaturas de até 30 graus. Mas também tem a hot, que é pra temperatura maior, e a cold”.

Enfim, todo esse papo de gadjets ciclísticos acabou quando boa parte dos 11 que lá colaram naquela noite chegou. O Wagner, um dos veteranos do jogo, com uma bicicleta montada no dia anterior e por isso ainda sem nome — “a outra chamava Diana, que é a Mulher-Maravilha, caçadora” –, o Garga(mel), com fixa pedal livre tunada, e todo o resto. Tudo “bróder”. Quem não é, “começa a aparecer que vira”. Eles praticam há mais ou menos um ano e meio, desde que a Tag and Juice apareceu. No início era na Vila Madalena, mas “a quadra não era muito bem conservada e era muito usada por outras pessoas”, então mudaram para o parque.

Começaram a jogar umas nove e meia. Vou avançar um pouco aqui, já que foram uns 15 jogos (“numa noite boa a gente costuma fazer mais ou menos isso”) e a ação você vê nas fotos que o Matheus fez (aliás, nosso novo estagiário, que teve que se desdobrar pra conseguir acertar a luz onde a iluminação é uma merda ao mesmo tempo em que poupava a própria vida no meio de tanto aço — ele pede desculpas por ter atrapalhado algumas jogadas).

Até o segurança do parque apitar o fim da brincadeira, exatamente às 23h55 (o parque fecha à meia-noite), foram seis acidentes. Hemorragia zero, pelo menos externa — o mais feio foi uma porrada no baço, fora um sanduíche. “Mas dá uma adrenalina. Eu já me machuquei pra caralho. Teve uma vez que a gente jogou e fiquei mancando por três semanas”, contou o Pablo. “Mas é tipo futebol. Às vezes rola uma dividida mais forte”, comparou o Wagner. Também rolou uma discussãozinha mais pro final da noite, mas nada tipo hóquei.


Da esquerda para direita: Pablo, Gargamel, Sujera, Renato, Wagner, Pulice, Igor e Flávio.

E já que todo final pede estatísticas: mulheres, nada (ainda nenhuma joga bike polo no Brasil); cerveja, finita (não se vende álcool dentro do parque); porrada? Alguma. Astral: 100% — não sei se você já chegou a ficar no parque até a hora de fechar, mas é um silêncio bem louco caso curtido ileso de estupros. Sei lá se “o declínio do futebol brasileiro vai ser a ascensão do bike polo brasileiro”, como professou o Wagner, mas “tá crescendo”, disse o Pablo. Tanto que já existe a conversa de se montar uma “associação” e estão pensando em formar uns times pra competir no Sulamericano em outubro deste ano, que vai rolar no Chile. A quem interessar possa, eles estão lá. Na fixação.

Antes que eu me esqueça, recebi esse zine da galera do blog Raio X. É sobre fixas, óbvio.

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