Música

O Teki Latex Fez um Set de Dez Horas no Overdrive Infinity e Foi Incrível

Escondido numa rua lateral a poucos minutos de distância da estação de metrô Saint Placide em Paris, longe das boulangeries que cobram dez euros por um croissant e dos cafés turísticos lotados de americanos atacando sanduichinhos franceses, está um dos escritórios parisienses do site de compartilhamento de vídeos Dailymotion. Nas noites de sexta, o espaço branco descoberto de um estúdio de produção é transformado numa espécie de clube íntimista. Este é o lar do set Overdrive Infinity do Teki Latex. Imagine uma Just Jam francesa – é quase isso.

Para os novatos, aqui vai um breve histórico do Teki Latex. Como rapper, cantor, produtor, DJ e dono de uma label, o Latex se inseriu muito bem nos clubes contemporâneos. Desde o início da sua banda de hip-hop TTC — onde fez colaborações com artistas como Tido Berman, Cuizinier, Para One, Tacteel e o parceiro de longa data DJ Orgasmic — até a label pioneira e infelizmente já extinta Insitubes, ou por meio de affairs com a disco perfection e a música de balada pesadona lançada pela label Sound Pellegrino que ele comanda com o Orgasmic, Latex passou a última década e meia injetando uma necessária dose dupla de cor e vibração na dance music. Sem contar que ele não é pouca bosta. Se você sabe de alguém que tenha feito colaborações com Skepta, Modeselektor, Cam’rom e Tom Trago, me fale o mais rápido possível.

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As sessions de sexta do Overdrive Infinity, cujo o próprio Latex faz a curadoria, são shows para alguns dos DJs mais intuitivos, intrigantes e interessantes da cena, atraindo artistas como Alex Deamonds, Eclair Fifi e Sudanim, enquanto simultaneamente oferece uma plataforma para nomes mais estabelecidos — Brodinski, Feadz e Oneman já deram o ar da graça por lá — se soltarem.

Perguntei ao Latex se ele via o programa como um marco para a club music francesa ou não. Ele respondeu bem pragmático. “Acho que ainda não chegamos lá. O show ainda não completou nem dois anos, então vamos ver. Também é complicado falar sobre ‘balada’ se tratando do Overdrive Infinity”, ele nos disse por e-mail. “Ele acontece num estúdio de TV, no início da noite e não dá para reunir mais do que 50 pessoas ao mesmo tempo no estúdio, elas começam a ficar bêbadas e prontas pra zueira 15 minutos antes do fim do show; parece mais uma instalação de arte do que uma balada. Mas é isto que o torna único e diferente do Boiler Room, por exemplo. Vamos ver como o show evolui no futuro, por enquanto eu só tô curtindo muito chamar vários DJs incríveis para tocar num estúdio foda.”

No mês passado eu tive a sorte de ver o Latex quebrando tudo no Just Jam. Ele tocou ao lado do Gage, Air Max 97, Madam X e sua conterrânea Betty Bensimon. Numa session em que todo mundo colocou o time titular em campo — o golaço que foi a Betty tocando “Squark“, do Roska —, havia uma mistura numa noite onde centenas de astros conquistaram o status da verdade transcendente. Perto do fim de um set que foi do techno metálico, barulhento, brutalmente claustrofóbico e abafado até o hip-hop abrasivo e continental, Teki reinventou a roda perfeitamente fundindo o vocal de “That’s Not Me” do Skepta com o dub suave de “Better Off Alone” da estrela one hit wonder, Alice Deejay. Você chutaria que não daria certo — mas eu juro que deu.

A sorte definitivamente estava do meu lado quando me dei conta que a minha viagem até Paris para cobrir o festival Weather coincidiria com algo muito especial que estava rolando no centro da cidade: Teki Latex ia tocar um set de dez horas no Overdrive Infinity. Nunca fiquei tão empolgado em fazer uma ponte aérea. Saca só o set na íntegra:

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TEKI LATEX SPECIAL 10 HOURS SET – Overdrive… by OverdriveInfinity

Quando cheguei, o Teki estava tomando um Club Mate e parecia o cara mais relaxado do mundo. Durante o jantar da noite anterior, em um restaurante israelense absurdamente bom em La Marais (o bairro gay e judeu da cidade), Latex já tinha tudo arquitetado, e me disse que estava pensando em começar o set pelas beiradas, para se acostumar com as estranhezas do ambiente antes de se jogar no hip-hop, jams de balada e o tipo de club music cinética e dinâmica que ele vem espalhando pelos porões da Europa e outros cantos. Quando entrei na escuridão do Overdrive Infinity, ele estava fazendo justamente isso, misturando umas músicas de lounge obscuras com “Genius of Love” do Tom Tom Club e “Heartbreaker” da Mariah Carey.

Latex então nos proporcionou algumas horas de ítalo disco sofisticada e melancólica, enquanto mandava umas misturas improváveis, recontextualizando faixas em ritmo acelerado. Apesar da casa não estar lá muito cheia — lembre-se, este evento ocorreu durante a semana — houve um burburinho genuíno. Cada faixa, cada transição, era recebida com sorrisos. Uma televisão na parede perto dos decks mostrava os tuítes sobre o evento em tempo real. Se o frisson no clube era pouco palpável, a internet estava inundada de pontos de exclamação e exaltações. Num dado momento, #10HoursofTekiLatex era o sexto maior assunto do momento na França: uma façanha para um livestream de um DJ tocando versões extremamente desaceleradas do A-Ha.

À medida que as horas passavam e o Latex já tinha enchido a cara de Club Mate, o set ficou mais pesado, mais frenético e mais clubber, culminando em alguns minutos de loucura total onde ele habilmente teceu a terrivelmente austera “Ouroboros” do Scalameriya no edit do Franxinus de “Door to Manual” do Fiedel e uma faixa do Helix, da Night Slugs. Era um trabalho de total desconstrução clubber e soava — no melhor sentido possível — como o fim do mundo.

A pergunta que não queria calar era: por quê um set de dez horas? O que faz alguém querer tocar por dez horas initerruptas para um público que é basicamente qualquer pessoa no mundo que tenha acesso à internet? Para Latex, parecia que o evento tinha uma aura de auto-afirmação. “Depois de tocar durante a noite toda algumas vezes nos últimos dois anos, pensei, ‘se eu consigo tocar por seis horas seguidas, provavelmente consigo tocar por dez’; e também foi ótimo dar uma nova luz ao show”, ele me disse. “Também teve a questão de trazer de volta ao universo dos DJs um certo sentido de meritocracia, pelo menos na minha cena. Acho que técnica pe um fator importante quanto ao que faz um DJ ser bom, e não estou falando de campeonatos de DJ, mas sim como trabalhar uma plateia desde o início até o fim do show, como construir um set, como pegar uma faixa, misturar com uma segunda e criar uma terceira a fim de levar as pessoas à loucura. Um set de dez horas é a melhor forma de mostrar sua técnica para todo mundo. Me deu a chance de provar que eu era este tipo de DJ enquanto prendia a atenção de todos.”

Nossa experiência de dez horas foi reduzida em mais ou menos seis, devido a outros compromissos. Quando estávamos indo embora, o Latex estava quebrando tudo com umas obscuras do Paul Wall e fazendo “Bring in the Katz” do KW Griff voltar a soar fresh assim como nas primeiras 300 vezes que a ouvimos na balada há uns anos atrás. Nossa partida coincidiu com o Latex levando alguns amigos para acompanhá-lo nos decks. “Tocamos um set de puro techno 4/4 sem neurose com o AZF, e depois baile funk e batidas tropicais com o Osgarmic seguido de uma pegada britânica com a Betty”, ele me contou depois. “Foi incrível e realmente ajudou muito a reiniciar minha inspiração antes da parte final do set.”

Depois de seis horas naquele lugar, me senti ligeiramente estranho e apenas me sentei em um sofá gostoso ao lado das plantas observando a galera trabalhar enquanto tomava um chá gelado. Como, eu me perguntei, o Teki Latex se sentiu depois de completar essa maratona de discotecagem? “Foi uma mistura de uma vibe meio ‘amo quando um plano se concretiza’, com uma outra meio ‘noooosssaaaaa, eu bebi tanto Club Mate que quero pular sem parar e tocar por mais dez horas e nem consigo sentir o meu rosto’ e uma vibe meio ‘talvez seja melhor eu parar agora senão vou começar a tocar umas paradas nada a ver’, também.”

Sem querer ser egoísta, mas seria foda se o Teki Latex tocasse por dez horas toda semana.

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O Josh também está no Twitter.

Tradução: Stefania Cannone

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