
Foto: Elisa Elsie
Desde o último dia 25 de maio, Natal vive dias atípicos. Ao que parece, uma parte dos 80% que desaprovam a atual gestão municipal resolveu sair do marasmo – ou melhor, da frente do twitter – para ir às ruas berrar presencialmente contra Micarla de Sousa (PV), a prefeita Borboleta (alcunha que deu a si mesma na campanha de 2008).
PARTE I — “ERAM SÓ 500 PESSOAS”
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Foto: Elisa Elsie
O que parecia ingenuidade começou pra valer através de uma convocação via redes sociais. A intenção? Paralisar o cruzamento das avenidas Salgado Filho e Bernardo Vieira, ponto estratégico da malha viária da cidade, e endereço do Midway Mall, maior shopping center da região. Deu certo. Centenas de jovens tomaram a área, enquanto outra multidão assistia perplexa ao episódio nas paradas de ônibus. Outros tantos motoristas demoraram a entender o recado, ou talvez tratava-se apenas de distinguir a razão específica de tamanho auê. Seria a greve dos professores estaduais? Da polícia civil? Dos transportes municipais?
Foto: Ingrid de Almeida
A resposta veio com o coro: “Fora, Micarla!”. Mas a criatividade popular abarcou gritos lacônicos de tom menos amenos, como “Ei, Micarla, vai tomar no cu!”, “Puta que pariu, é a pior prefeita do Brasil” ou “Micarla, vá se foder, nossa cidade não precisa de você” e similares.
Naquela noite, depois de paralisarem o cruzamento, os manifestantes seguiram adiante debaixo de chuva e fecharam outros dois cruzamentos. Na altura da avenida Prudente de Morais, derrubaram, no braço, um outdoor com publicidade institucional da Prefeitura. Em seguida, no cruzamento da avenida Bernardo Vieira com a Prudente, queimaram pneus e uma borboleta tamanho família confeccionada artesanalmente. Esta última cena foi captada pelas lentes da TV Ponta Negra, afiliada do SBT cuja concessão pública pertence à família da prefeita, ela mesma jornalista por formação. Desnecessário dizer que a emissora desceu o pau bonito.
Fotos por Ingrid de Andrade
A movimentação pegou os gestores municipais de surpresa, principalmente boa parte da imprensa potiguar, que – surprise, surprise! – se absteve de fazer uma maior cobertura do ocorrido e ainda censurou a “falta de civilidade” de alguns manifestantes. A própria prefeitura não comentou o assunto, e com a repercussão fraca nos meios tradicionais de comunicação, deu-se o assunto por encerrado.
Uma semana depois, gogós a postos e munidos de cartazes, manifestantes voltaram às ruas da cidade. O número de baderneiros – assim qualificados pela imprensa micarlista – triplicou. A disposição em se fazer ouvir, também. Foram ao menos oito quilômetros de marcha, partindo da avenida Prudente de Morais e seguindo pela BR-101 rumo ao Praia Shopping, zona sul da cidade – sim, natalenses adoram um shopping.
Durante a caminhada, que se prolongou por mais de quatro horas noite adentro, vários motoristas buzinaram e sinalizaram em apoio ao protesto. Não raro, alguns desceram do carro para aplaudir de pé a multidão que caminhava entre o congestionamento. Ao passar pelos ônibus coletivos, os manifestantes cantavam “mãos ao alto, R$ 2,20 é um assalto”.
Como o segundo protesto foi divulgado com antecedência, uma pá de puxa-sacos comissionados da prefeitura apareceu para tentar melar o ato. Em vão. Ainda assim, parte da imprensa amestrada cumpriu o seu papel. Um dos maiores jornais em circulação no Estado chegou a confundir uma faixa com os dizeres “O Egito é aqui” por “o agito é aqui”. Cerca de 12 horas depois da publicação do texto, suma avalanche de comentários oscilando entre o deboche e a fúria resultou numa correção silenciosa do trecho da matéria.
Um novo ato foi marcado para as 9h do dia 07/06, desta vez rumo à Câmara Municipal de Vereadores – os últimos protestos seguiam espontaneamente na direção do primeiro maluco que avançasse contra os carros em movimento. A data caiu numa terça-feira chuvosa, o que levou boa parte das pessoas a ficar em casa.
Passava das 10h quando um grupo de aproximadamente 200 pessoas saiu da Praça Pedro Velho rumo à Câmara. Durante o percurso, houve parada estratégica para mandar um “vai tomar no cu” pessoalmente à prefeita em frente ao Palácio Felipe Camarão, sede da prefeitura. Apesar de o prédio ter sido esvaziado minutos antes, um grupo de guardas municipais permaneceu postado à entrada da prefeitura enquanto os manifestantes dançavam ciranda e endereçavam outros adjetivos carinhosos à chefe do executivo municipal.
Ao chegar na Câmara, os participantes do protesto encontraram boa parte dos vereadores presentes em uma audiência pública. O recinto, pequeno por razões óbvias — quanto menores os espaços de discussão e participação da opinião pública, mais conveniente para os políticos –, ficou ainda menor. Apesar de separados por uma vidraça, ainda houve vereador da bancada de apoio da prefeita disposto a dizer que o ato configurava uma “ameaça” frente ao perigo iminente de que a estrutura de vidro cedesse ante à pressão dos manifestantes. A audiência pública foi encerrada e os vereadores que compõem a bancada de apoio da prefeita (13 de um total de 21) caíram fora da Câmara.
PARTE II — BEM VINDO AO ACAMPAMENTO PRIMAVERA SEM BORBOLETA
Foto: Elisa Elsie
Ninguém viu ao certo como a história se desenrolou a partir daí. Fato é que bastou a primeira barraca ser armada para que outras pessoas tomassem a mesma iniciativa. Em poucas horas o pátio interno da Câmara já abrigava em torno de dez barracas.
Foto: Elisa Elsie
Neste dia, e no dia seguinte, a ocupação na Câmara não reunia mais que 40 obstinados, e o número de visitantes oscilava ao longo do dia. Não tardou e logo a movimentação começou a ser transmitida via twitcam. Temas relacionados à prefeitura eram discutidos em plenária, e os manifestantes, compostos em sua maioria por estudantes, passaram a pensar formas de viabilizar a saída da prefeita Micarla de Sousa do cargo. Os indícios de irregularidades pareciam pipocar aos montes; contratos com suspeita de superfaturamento, compras com dispensa de licitação, terceirização de serviços da saúde, caos na limpeza urbana, transporte público a um preço exorbitante. Os vereadores, por outro lado, pareciam pouco interessados em fiscalizar os trabalhos do executivo.
Foto: Elisa Elsie
O episódio da ocupação coincidiu com a polêmica gerada pelo impasse na Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investigaria os aluguéis supostamente superfaturados pela atual gestão. As investigações poderiam servir de fundamentação legal para cassar o diploma da prefeita em exercício. A blindagem da bancada situacionista, contudo, terminou por concentrar as posições de relatoria e presidência dos trabalhos na mão de vereadores governistas – um deles acusado de manter contratos milionários com a saúde municipal. A oposição, é claro, não gostou nada disso.
No dia seguinte à ocupação, o presidente da Casa, Edivan Martins (PV), juntamente com o vice-presidente, Júlio Protásio (PSB), desceram dos gabinetes e foram ao pátio conversar com os manifestantes. A intenção era negociar a saída dos estudantes e ouvir as reivindicações. Naquela noite, o presidente se comprometeu a realizar uma audiência pública na semana seguinte para discutir irregularidades na prefeitura, e Júlio Protásio prometeu dissuadir um dos membros da CEI e colega de partido, o vereador Bispo Francisco de Assis, a desistir da presidência dos trabalhos para que alguém da oposição tomasse a vaga. Não deu. O parlamentar em questão chegou a afirmar que não abriria mão da presidência “nem para o cão”.
Enquanto isso, outro ato ia sendo articulado, na noite de quinta-feira (9), em solidariedade aos acampados na Câmara. O intuito era engrossar o coro lá dentro. Na hora em que manifestantes começaram a marchar rumo à casa legislativa, contudo, os acampados encontraram preservativos e alguns baseados espalhados pelas dependências do imóvel. Curiosamente, as camisinhas sequer haviam sido desenroladas, e o naipe dos baseados provocaria crises de riso até no policial mais xiita. Nesse meio tempo, chega a TV Ponta Negra — a emissora da prefeita, lembra? — e, sem identificação, filma tudo. Os acampados, em negociação com a polícia — que, por sinal, a essa altura do campeonato está fula da vida por atender uma ocorrência do tipo no meio de uma greve da categoria — acabam assinando um termo de compromisso onde afirmam que os objetos encontrados não pertenciam a ninguém ali e teriam sido, possivelmente, plantados na tentativa de criminalizar os protestos que até então vinham mantendo a ordem e o tom pacífico.
Enquanto o pau comia na Câmara, a manifestação do lado de fora seguia rumo à sede do legislativo. Novamente, a prefeitura mobilizou sua força comissionada para tentar ridicularizar a passeta, pagando para que pessoas segurassem faixas fora de contexto. Até então, a prefeitura não havia se pronunciado oficialmente sobre o assunto, mas o chefe da Casa Civil, Kalazans Bezerra, havia feito questão de informar na semana passada, via twitter, que a inteligência da polícia (qual? a que está em greve?) seria mobilizada para identificar e punir os baderneiros. Havia ainda a versão — amplamente divulgada — de que tudo não passaria de uma orquestração da oposição golpista, disposta a todo custo a afundar uma administração tão maravilhosa. Para a prefeita Borboleta é tudo uma questão de intriga da oposição.
No dia seguinte, a surpresa: o Diário Oficial do Município publica a extinção da CEI dos Aluguéis, sob o argumento de que o regimento interno prevê que as comissões de investigação não podem funcionar com menos de três membros. O raciocínio do presidente da Casa era simples: uma vez extinta a CEI, os manifestantes perdem o objeto do protesto e já podem se retirar. Tinha tudo para dar certo, mas talvez o presidente tenha esquecido ou ignorado a obstinação dos acampados, que a essa altura já eram mais de 80. A conexão à internet wireless da Câmara também foi cortada, e os manifestantes tiveram que se virar com modens 3G para continuar a cobrir a ocupação. Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Frei Beto, o neurocientista Miguel Nicolelis, professores universitários e uma parte da sociedade natalense já havia se posicionado a favor dos acampados. A propósito: a essa altura do campeonato, dialogar já não era mais uma das prioridades do presidente.
Desde a última sexta-feira, ameaças vêm e vão alertando sobre a iminência de uma possível repreensão policial que tiraria os manifestantes na base da força bruta. A cada novo alerta de repressão policial, o número de pessoas na Casa aumenta em até dez vezes. Mas entre tantas idas e vindas, Edivan caiu em descrédito e viu sua moral rolar ladeira abaixo junto com os índices de popularidade da prefeita. A última investida pelas vias judiciais, na quarta-feira (15), consistiu em derrubar o habeas corpus concedido aos manifestantes, e que garantia o direito de permanência nas instalações da Câmara. Em votação no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, desembargadores opinaram pela desocupação imediata das instalações, por força policial se necessário, mas recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) impetrado por manifestantes derrubou a decisão do TJ-RN. A decisão foi comemorada aos berros pelas mais de 500 pessoas que ocupavam a casa no momento em que foi anunciada a decisão, e rolou até hino nacional banhado a lágrimas. Naquela noite, diversos buzinaços simultâneos aconteciam pela cidade.
Um acordo está em vias de negociação. Ontem (16), vereadores se reuniram no intuito de analisar as propostas do coletivo #Foramicarla, que exige a instalação de uma nova CEI com composição equilibrada entre as bancadas de oposição e situação, além de uma vaga para a oposição na relatoria ou presidência dos trabalhos, e a realização de uma audiência pública para discutir a situação administrativa do município. Caso o pleito seja atendido, as dependências da Câmara serão desocupadas. O mesmo acordo já foi cogitado em outras ocasiões, porém os manifestantes se mantiveram irredutíveis porque o presidente da casa se recusou a atender qualquer pleito antes da desocupação. Os acampados, por outro lado, se recusam a sair em retirarada antes da abertura da nova CEI e da realização da audiência.
A prefeita Micarla de Sousa chegou a dar entrevista coletiva na última segunda-feira (13). Visivelmente alterada, a gestora continuou a alardear o discurso de que está sendo vítima de uma orquestração política, e hostilizou repórteres — a essa altura, boa parte da população já estava a par do que acontecia na Câmara, e relegar a cobertura da ocupação a notinhas cínicas de canto de página já não fazia mais tanto sentido para boa parte da imprensa, até mesmo para a TV Ponta Negra. Na quarta-feira (15), o coletivo #Foramicarla divulgou carta endereçada à prefeita, onde explicita — possivelmente pela enésima vez — os motivos da ocupação. A carta finaliza ironizando uma peça publicitária veiculada nos últimos meses que consistia em divulgar maciçamente ações da prefeitura sob o slogan “Essa é mais uma ação da prefeitura que você não sabia. Mas agora sabe. E com certeza, aprova”. A carta encontra-se disponível aqui.
Foto: Elisa Elsie
Enquanto o impasse segue, o acampamento, batizado de Primavera Sem Borboleta, é morada temporária de anarquistas, partidários, apartidários e representantes dos mais diversos segmentos e estratos sociais. A organização é por comissões (de limpeza, finanças, articulação política, comunicação, alimentação, jurídica, segurança e cultura), e boa parte da alimentação é doada por simpatizantes do movimento, sindicatos ou políticos oposicionistas.
Foto: Elisa Elsie
Apesar do medo constante de levar porrada da polícia, os acampados se mantêm determinados a resistir pacificamente até que as reivindicações sejam atendidas. Mas há também momentos de descontração, quando as pessoas se reúnem para jogar peteca, disputar partidas de War ou convidar músicos para tirar um som. Um episódio irônico aconteceu ainda nos primeiros dias da ocupação, quando um vereador da oposição puxou uma quadrilha junina. O vídeo está no youtube, e serviu de pano pra manga pra blogueiro passar lição de moral. O vereador em questão, Luiz Carlos (PMDB), pode responder por quebra de decoro, mas respondeu na cara dura: “Acho que a Câmara deveria era me homenagear por estar preservando a cultura junina potiguar”. Quadrilha na Câmara, com o perdão do trocadilho, não é novidade para nenhum natalense.
Foto: Elisa Elsie
No YouTube, o termo Foramicarla já contabiliza quase 200 vídeos publicados, isso sem contar o material disperso nas redes sociais como facebook e twitter. A hashtag #foramicarla já virou habitue dos trending topics, tanto que agora sequer figura nos mais citados. Para inovar, o natalense se saiu com outra: #SOSNatal. As duas hashtags se somam ao universo particular que inclui ainda #valeuoboi, uma referência ao slogan de campanha do vereador e presidente da Câmara, Edivan Martins.
Uma das últimas sensações da web por aqui é a música “A prefeita mais picareta da cidade“, paródia de “Oração”, de autoria d’A Banda Mais Bonita da Cidade. O vídeo já teve mais de seis mil acessos em dois dias de circulação na rede. A criatividade segue no espaço físico da Câmara, com diversas intervenções. Os palavrões já não pontuam as frases de efeito da mesma maneira. No dia dos namorados, alguém pregou o seguinte cartaz: “Não ligo de estar só no dia dos namorados. E daí? No dia do índio, eu não fico com um índio do lado. No dia da Páscoa, não fico com o coelhinho. Assim como no dia das bruxas eu não fico com Micarla!”. Na placa oficial da Câmara, os nomes que compõem a Mesa Diretora da Casa foram substituídos por letras garrafais, onde se lê: “Nós mesmos: O POVO!”.
MAIS FOTOS (MUITAS!) DA MANIFESTAÇÃO NO NOSSO fotoblog.
Para ainda mais fotos, visite o grupo “Cadê a Prefeitura?“, no Facebook.
POR RAYANNE AZEVEDO
FOTOS: INGRID DE ANDRADE E ELISA ELSIE (CEDIDAS)
AGRADECIMENTOS: @LADOERRE
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