
Fotografia por Luísa Cativo
Igor Domingues cumprimenta-nos com um aviso assim que nos encontramos no topo do Parque Eduardo VII: “Não sou o melhor gajo para ser fotografado nem para entrevistas”. Com acentuado sotaque tripeiro, barba milimetricamente aparada e óculos espelhados estilo aviador, a espontaniedade do baterista de Throes + The Shine perante as lentes ou os gravadores não lhe é a mesma do que quando martela as baquetas. Nem tão pouco se assemelha à forma inesperada com que os Throes e os The Shine começaram a fundir o rock e o kuduro: conheceram-se em 2010, no Festival Náice, no Porto, e ali estabeleceram uma parceria que viria a consolidar-se no ano seguinte, após uma actuação no festival Milhões de Festa, em Barcelos, e que deu à luz o Rockuduro.
Volvidos quatro anos, Throes + The Shine entram agora numa nova fase: a da maturação. O novo álbum, “Mambos de Outros Tipos”, traz uma mensagem mais abrangente e um jogo ritmico que se espalha pelas opostas influências dos membros da banda. Afinal, diz-nos Igor, o projecto não resultou em algo “freak” e as pessoas começam agora a identificar-se com a fusão de estilos. E é já quando a conversa flui e Igor se abstrai do peso da entrevista que conta à VICE que há um certo experimentalismo em tudo o que criam – visível no vídeo do single “Dombolo” — e que o kuduro chega agora aos portugueses com uma faceta menos marginalizada.

Fotografia por Francisco Melim
VICE: Que Mambos de Outros Tipos são estes?
Igor Domingues: São nove músicas que mostram a evolução de uma banda que começou por acaso com o Rockuduro. Mostra também outras inspirações e influências que foram surgindo durante o percurso da banda, influências mais tradicionais angolanas, electrónica e aquilo que nos caracteriza, que é o rock e o kuduro.
Que diferenças encontras entre este álbum e os trabalhos anteriores?
É engraçado porque, no passado, só fiz hardcore, punk e rock ‘n’ roll. Por isso, estar no meio de música de dança é algo bastante diferente, é uma energia à qual não estava habituado em qualquer outra das bandas em que estive. Agora, diferenças há muitas. Desde as temáticas das letras e o tipo de lugar onde tocamos. Estava habituado a tocar em botecos e, de repente, estou a tocar em festivais de músicas do mundo, electrónica, rock… Tudo isto influenciou o nosso último trabalho, até porque todas as viagens que fazemos, e todo o tempo que passamos juntos, mostramos músicas uns aos outros e isso influencia sempre.
Como foi a produção deste álbum?
Neste álbum tivemos mais tempo para fazer a maturação do disco. O primeiro álbum foi feito um bocado à pressa. Este não e tínhamos já um contexto em que queríamos enquadrar o disco. Queríamos que fosse mais abrangente. Com o primeiro, o Rockuduro é mais voltado para as massas mais jovens e com este disco acho que vamos conseguir atingir outro público. Mas lá está, a junção de influências e outros estilos musicais vai fazer com que o álbum seja mais variado e um pouco mais abrangente do que o anterior.
O que tenho lido na crítica é que vocês têm neste álbum uma mensagem mais clara. Afinal, que mensagem é essa de que tanto se escreve?
Não queremos marcar nenhuma posição política ou social, não é nada disso. Como banda, nós somos os nossos principais críticos e, ouvindo o álbum anterior, achámos que estar sempre a falar de festa não é exclusivamente o que queremos transmitir. Até porque a música por si só, o groove, o ritmo, já é bastante dançável, mas não queríamos ficar só por aí. Então resolvemos falar sobre a infância dos The Shine [que escrevem as letras], o dia-a-dia, as coisas que nos chateiam, mas mantendo essa vertente mais festiva.

Tenho para mim que a vossa explosividade sonora pode ser associada por ouvidos preguiçosos aos Buraka Som Sistema. Para além do rock, de que forma abordam o kuduro para se distinguirem?
Logo à partida, são coisas diferentes, até pela forma como são compostas as músicas. Não conheço os Buraka, mas aprecio bastante o trabalho deles e acho que eles foram os pioneiros neste mercado. Como ouvinte, costumo consumir a música deles. Mas a forma como compomos é bastante diferente. Eles, no fundo, são DJs que têm bateria, percussões e uns emcees; nós tocamos tudo ali ao vivo, tocamos a bateria, os sintetizadores, a guitarra, o baixo. Não há ali nada pré-produzido. O próprio show ao vivo marca logo a diferença.
Certamente que as influências dos Throes e dos The Shine são diferentes, pelo menos até ao momento em que se reuniram. Como é que se adaptaram as estas diferenças sonoras?
Já foi mais difícil do que é agora. Acredita que os primeiros foram complicados. Lembro-me de estar a trabalhar e dizer, “epá, não quero fazer isso”, mas à medida que fomos desenvolvendo o projecto, fomos criando uma identidade como banda e, a partir daí, as influências de cada um já não são tão vincadas. Chegas a uma altura que ouves algo e pensas “isto é boa ideia para Throes + The Shine” e fazes aquilo.
Qual é história do vosso primeiro vídeo, o “Dombolo”?
[Em “Dombolo”] como os sintetizadores têm um carácter mais dark, queríamos diferenciar um bocado do que se tem feito por aí. Muitas vezes este tipo de bandas — e nós também já o fizemos e vamos continuar a fazer —, quando têm música mais dançável, fazem um vídeo muito alegre a acompanhar. Nós quisemos fazer algo sombrio, porque os sintetizadores têm um som grave, mais sujo, e, por essa razão, quisemos fazer algo não tão óbvio. O óbvio para aquela música seria malta aos saltos e aos pulos e nós, pura e simplesmente, não quisemos fazer isso.
Pouco óbvia foi também a forma como os Throes + The Shine nasceram…
Nós conhecemo-nos no Inverno de 2010 festival Náice, organizado pela Lovers & Lollypops, que se realiza no Plano B e que reúne bandas que tocaram na anterior edição do festival Milhões de Festa. Eu e o Marco [Castro, guitarrista] estávamos a tocar como Throes, que é meio post-hardcore de bateria e guitarra, e por acaso, nessa altura, nós tínhamos feito uma música que só tocámos nesse concerto em que o groove de bateria era muito semelhante ao ritmo do kuduro. Os The Shine estavam a ver o concerto e acharam um piadão àquilo e, a meio do concerto, começaram a rapper. Nem dei por nada, foram uns amigos meus que depois me disseram. No final do concerto, vieram falar connosco a perguntar se queríamos fazer uma participação e nós aceitámos. Depois aquilo ficou em banho maria. No ano seguinte, acabámos por fazer um vídeo para o Bodyspace e aquilo teve uma receptividade bastante boa. Acabámos por ser convidados para fazer um concerto no Milhões de Festa desse ano como Throes + The Shine. O concerto correu bastante bem, foi uma cena incrível, sinceramente não estava à espera que o pessoal aderisse tanto. E foi quando acabámos o concerto que dissemos uns para os outros que tínhamos de fazer disto uma banda a sério e foi o que fizemos até agora.
O que é que pensaste quando te viste num projecto de fusão rock com kuduro?
Pensei que ia surgir algo bem mais freak, marado. Mas, quando dei conta, já estávamos a fazer uma coisa fixe, que não choca muito. Se me perguntasses há três ou quatro anos se ia estar a fazer isto, eu não ia acreditar. Mas realmente comecei a fazer e gostei, nunca me diverti tanto a tocar em concertos como agora.
Então passaste a dar mais atenção ao kuduro e música africana…
Sem dúvida. Aliás, hoje em dia oiço muito mais música africana. Não kuduro, mas oiço semba, Fela Kuti, cumbia. Mas, lá está, é algo mais tropical que não ouvia até então.

O kuduro sempre esteve muito associado à cena sanzala e bairros de emigrantes africanos. Achas que os portugueses já vêem o kuduro com outros olhos?
O pessoal já viu que o kuduro pode dar festas incríveis, então começa a ouvir mais e a aparecer em concertos e festas. Mesmo assim, é um som um bocado marginalizado, o pessoal ouve kuduro e acha logo que é coisa azeiteira. Porque há kuduro azeiteiro, mas tanto pode ser como não ser, há boas coisas em todos os estilos.
Achas que o género pode estar a caminho de criar ramificações? Isto é, o kuduro tem espaço para acolher sons derivados dentro do estilo, tal como existe no rock e na electrónica?
Acho que tem uma base forte para se tornar num estilo maior. É como te dizia há pouco, o kuduro tem um groove e um ritmo que é muito forte. Até costumo dizer que só se o pessoal for surdo é que não dança. Até eu que sou o maior pé-de-chumbo, que não costumo dançar em lado nenhum, fico diferente quando estou numa festa de kuduro, é mesmo algo que faz as pessoas dançarem.
Mas achas que têm recebido a devida atenção do público português? Isto porque vocês tocam muito lá fora…
Acho que sim, mas nós queremos sempre mais. Também percebo que Portugal é um mercado pequeno. Tu aqui não tens muito por evoluir. O país é pequeno, fazes Porto, Aveiro, Lisboa e quase que já percorreste o país. Aqui não podes fazer um tour. A internacionalização é a única solução para uma banda ir sobrevivendo um pouco melhor.
Como é que é o vosso futuro próximo?
Já tivemos o lançamento no Musicbox, em Lisboa, e agora é no Porto, dia 24 Maio. Depois vamos fazer um tour de lançamento na Suiça. Vamos ter festivais, mas ainda não posso adiantar nada. Cá em Portugal, já temos alguns festivais para fazer, mas, para já, nenhum dos grandes.
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