Quando o Tigers Jaw anunciou em 2013 que estavam perdendo mais da metade de seus membros, a internet pensou de forma quase unânime: “é, pelo jeito já era pra eles”, e viraram a página da banda. Quem prestou atenção às declarações posteriores deles (bem como aqueles que entendem a diferença entre “entrar em um hiato” e “terminar”) talvez saiba um pouco mais sobre a situação, mas mesmo agora, mais de um ano depois, a banda ainda lida com a confusão em torno de sua existência ou não.
Você seria perdoado, então, ao ser surpreendido com a notícia de que o Tigers Jaw tem um novo disco intitulado Charmer, pronto para ser lançado a qualquer momento. Porém, certamente é menos surpreendente o fato de que é um baita álbum. Batemos um papo com o guitarrista e vocalista Ben Walsh para saber exatamente o que acontece com a banda, como eles estão seguindo em frente com apenas dois integrantes fixos e o que podemos esperar para o futuro.
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Noisey: Em março do ano passado vocês anunciaram que vários membros da banda estavam deixando o Tigers Jaw e que a banda seguiria em frente com você e Brianna. Esse fato levou a diversas especulações do tipo “O Tigers Jaw está acabando ou entrando em um hiato?” e por aí vai. Houve um esforço da sua parte para deixar esses rumores de lado e lançar logo o disco, mas ainda assim existe alguma confusão entre os fãs sobre o status da banda e o fato de o Tigers Jaw ainda estar na ativa?
Ben Walsh: Sim, com certeza. Ainda estamos vendo algumas coisas e tentando esclarecer essas pequenas confusões sempre que pudemos. Quando os outros membros deixaram a banda ano passado, não sabíamos exatamente o que iríamos fazer. Todos fomos amigos tão próximos durante tantos anos que precisamos de uma forma de ganhar tempo antes de tomar qualquer decisão séria. Então demos aquela declaração e ela era meio vaga, consigo entender porque ela foi interpretada como foi, e desde então estamos trabalhando com contenção de danos e tentando limpar a bagunça.
Vimos muitas reações diferentes, tipo gente achando que fizemos isso como um golpe de publicidade ou como uma forma de ganhar mais dinheiro ou algo assim, mas não tem nada a ver com isso. O que aconteceu é que estes amigos, nossos amigos mais próximos, chegaram e disseram que não tocariam mais conosco. Sendo assim, quisemos ganhar algum tempo pra resolver tudo.
O quanto a Run For Cover Records apoiou vocês durante este tempo? Em algum momento rolou alguma preocupação do tipo “bem, metade da sua banda está indo embora, então já era”, ou eles lidaram bem com vocês em todas as fases do processo?
Tínhamos uma relação muito boa com a Run For Cover e eles sempre aguentaram essas nossas inconsistências. Nunca fomos uma banda de tempo integral, nunca fizemos turnês mais longas do que algumas semanas ou um mês durante o ano, então eles sempre nos apoiaram e foram compreensivos com o fato de que havia outras coisas rolando e que tocaríamos sim o quanto pudéssemos, mas não teríamos como manter o mesmo cronograma que muitas das outras bandas da gravadora.
Quanto ao novo disco, tivemos todo o apoio do mundo por parte da Run For Cover, que também acreditou na gente. Quando tudo estava meio solto no ar, não nos cobraram respostas nem nada logo de cara, nos deixaram resolver tudo. Parece mais uma relação de amizade do que qualquer outra coisa. É, de fato, um bom relacionamento de se manter.
Agora que algum tempo passou e vocês tiveram a oportunidade de se acostumar a criar como dupla, como se sentem agora que a fase de transição ficou para trás?
Não sabia mesmo o que esperar. Sabia que rolariam muitas mudanças drásticas, mas Brianna e eu concordamos muito em diversas coisas, além de termos objetivos parecidos em termos pessoais e musicais. Tem sido ótimo trabalhar com ela e criar um plano de ação de onde levaremos a banda no futuro.
Muitas das músicas em Charmer foram gravadas com a formação completa da banda, antes da partida dos membros. Com a decisão deles de sair e nesse estado transitório, isso teve muito impacto no processo de gravação ou mesmo nas músicas em si? Ou foi como gravar qualquer disco do Tigers Jaw?
Tudo ficou meio solto porque não tínhamos certeza se eles ainda iriam querer gravar o disco ou não, e tínhamos trabalhado bastante nessas músicas e acho que todos estávamos muito orgulhosos do que havia sido feito até então. Logo, todo mundo topou terminar de compor as músicas e gravar o disco.
Entrar em estúdio nessas condições foi certamente esquisito pra nós. Não passamos muito tempo os cinco juntos lá, mas todos trabalharam duro e conseguiram gravar takes muito bons. Tenho muito orgulho das músicas que criamos e acho bem representativas do momento que a banda vive.
Como foi trabalhar com Will Yip no estúdio? Houve algo em especial que você acha que ele trouxe ao álbum que não seria possível com outro produtor?
Veja bem, nós nunca nem tínhamos trabalhado com um produtor antes. Sempre tentamos tirar o melhor da música nós mesmos e tal, então trabalhar com Will não foi o que eu esperava do trabalho com um produtor. Ele não era mandão, não tentava forçar suas ideias, eles nos deixou sermos nós mesmos. Se ele tinha alguma ideia, a apresentava e discutíamos. Não sabia exatamente o que esperar, mas acabamos nos dando muito bem e logo estávamos em sintonia em um monte de coisas, então foi um ótimo relacionamento de trabalho e creio que o disco tenha saído melhor por conta disso.
Você poderia nos falar de onde veio a inspiração para o nome do album, Charmer?
Queríamos um título curto e simples. Sempre gostamos da temática da dualidade e palavras que possuem mais de um significado. Charmer é um termo com conotações negativas e positivas. É a ideia de que uma palavra pode ser interpretada de diversas formas, dependendo do seu ponto de vista.
A capa tem um visual quase que de bordado à mão. Alguém bordou mesmo aquilo e escaneou?
Brianna passou muitas, muitas horas, bordando aquilo tudo. Ela fez praticamente todas as nossas artes desde o começo, então quis tentar algo um pouco diferente, e aprendeu a fazer isso, aprendeu a bordar. Achei que ficou foda, estou bem feliz com ela.

Bordado maaaaaaaasssa, Brianna.
O disco soa menos pop e mais maduro agora. Há uma… não sei bem como falar isso, mas uma pegada mais indie rock adultinha. De que maneiras você acha que amadureceu mais neste álbum?
Pra mim, ser exposto a bandas diferentes, diferentes tipos de música, ouvir bandas de rock mais velhas e curtir muito Fleetwood Mac e Black Sabbath e outras coisas que expandiram minhas influências musicais. Ao passo em que as músicas no disco possam não ser nada parecidas com as destas bandas, há diferentes essências que podem vir das influências que você tem.
Como banda, acho que depois de tocar tanto tempo juntos, acaba-se desenvolvendo esse tipo de conforto e não sinto… Como posso dizer isso? Pra mim, soa como Tigers Jaw. Não sei mais o que dizer sobre isso. Acho que é sim um disco mais maduro, mas ainda soa como nós.
De fato ele soa bem familiar em relação ao que as pessoas provavelmente passaram a esperar do Tigers Jaw.
Foi bom envolver Brianna ainda mais nos vocais e composição. Algo que não rolava nos álbuns anteriores.
Quais os elementos e aspectos em que Brianna mais contribuiu na composição, ao seu ver?
Ela me ajudou com algumas letras. Trabalhou duro pra entender algumas harmonias que soam muito, muito bem. Há algumas harmonias de três partes que ela bolou em algumas músicas, além de ter muitas sugestões, não só para sua voz, mas para outros trechos, sempre se envolvendo muito com como certa linha seria cantada ou como a letra era fraseada, coisas assim. Definitivamente ela teve um papel mais ativo que no passado.
Parece que nos shows você tem contado com a ajuda de outros músicos e amigos pra quebrar um galho. Vocês já tentaram tocar no formato de dupla?
Bem, fizemos alguns shows acústicos. Em setembro tocamos no Studio 4 com Anthony Green e foi bem legal tocar versões enxutas das músicas. Antigas e novas. Pode ser meio desesperador fazer isso, especialmente pra mim, mas foi divertido e acho que Will gravou tudo, então esperamos lançar estas versões no futuro, também.
As suas músicas se transferem bem para um contexto acústico ou é preciso um pouco de reestruturação?
Acho que não penso nisso há um bom tempo. Não é uma conversão exatamente perfeita, tenho que mudar algumas coisas e talvez tocar alguns acordes diferentes pra que o som pareça mais cheio, tentando manipular os acordes e tocar um riff dentro daquele acorde, compensando esse lance de tocar duas partes de guitarra de uma só vez da melhor forma que posso. É um desafio com toda a certeza, mas na maior parte do tempo acho que as músicas que tocamos se adequaram bem.
Ao cair na estrada esse verão, quanto do set você acha que será dividido entre o material antigo e o novo? Você está mais empolgado em tocar as coisas novas ou ainda curte tocar algo dos discos mais antigos também?
Definitivamente ainda é divertido tocar músicas antigas, mas estou bem empolgado pra tocar as novas. Deve rolar uma mistura bacana de velho e novo.
Para a turnê de verão, você já sabe quem vai completar o Tigers Jaw na estrada? Acho que vi algo no Twitter sobre Eliot Babin, do Touché Amoré possivelmente tocar bateria.
Ele vai! Eliot na bateria e Derek Sherman na guitarra, que aliás, tem tocado bastante com a gente. No baixo, Luke Schwartz.
Há algo em especial que te deixe mais ansioso pela turnê?
Sempre tivemos pouca disponibilidade para turnês, então sempre que posso tocar é bem foda. Adoro estar na costa oeste e certamente vamos passar mais tempo viajando do que nos outros anos. Vamos tocar em muitos lugares novos, então estou muito ansioso mesmo.
Pensando no futuro do Tigers Jaw, vocês já criaram bastante nesse esquema de dupla? Há planos para mais material no future após o lançamento de Charmer e o fim de sua turnê?
Com certeza. Nunca passou pelas nossas cabeças parar de compor. Brianna e eu estamos trabalhando em umas coisinhas. Tem essa música que fizemos juntos pra compilação do Will Yip e estou trabalhando em outras coisas, tentando gravar umas demos aqui e ali. O processo de composição é mesmo lento pra mim, mas contínuo, então esperamos lançar música o quanto antes.
Charmer foi lançado pela Run for Cover Records.
Ben Sailer está no Twitter, desmentindo boatos sobre sua separação – @BenSailer
Tradução por: Thiago “Índio” Silva
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