Sumô Não É para Sedentários


Doeu. Foto: Guilherme Santana/VICE

Sal de cozinha é arremessado na terra vermelha para purificar o ambiente. É o ritual shibo-barai, explicam. Seis homens abaixados, em silêncio, pedem para que tudo corra sem lesões. O dohyô, aquele ringue circular de terra usado nas competições de sumô, está enlameado pela chuva. Em sua volta só se ouve it, ni, san, shi, go, roku, shiti, haiti, kyu, dyu. O treino começa com leves pulinhos na Associação de Sumô do ABC, em Santo André, em São Paulo.

It, ni, san, shi, go, roku, shiti, haiti, kyu, dyu“, grita Diogo Uehara, o cara que puxa o aquecimento até então levinho, levinho. Alonga perna, estica, puxa, gira braço pra frente, pra trás. Nada que você não tenha visto na Educação Física da 5ª série ou no extinto programa vespertino da Solange Frazão (aliás, sdds).


Treininho de boas. Foto: Guilherme Santana/VICE

Diogo completava 20 anos naquela tarde chuvosa de sábado. Praticante do sumô desde os oito, ele tem na bagagem dois títulos regionais, um vice-campeonato paulista e um terceiro lugar no brasileiro, todos em categorias infantil ou juvenil. It, ni, san, shi, go, roku, shiti, haiti, kyu, dyu ele grita enquanto todos nós, com as pernas afastadas, buscamos o solo.

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A seguir, agachados na posição inicial, fazemos o chirichozu, um movimento acrobático com os braços que mostram ao adversário que você é um competidor leal e não carrega nenhuma arma.

O exercício requer mobilidade. Com as pernas abertas, os braços se alongam até o solo, o tronco é jogado pra trás e dá uma puta esticada nas costas. A base do sumô, muito útil para melhorar o rendimento em outras artes marciais, exige equilíbrio. Com as pernas bem abertas e os pés de lado, o sumotori – nome dado a todo praticante da arte marcial xintoísta – se agacha com a coluna ereta. Esse é o movimento básico para estar naquele círculo com alguma honra. Mas se manter nessa posição não é tarefa fácil. Eu bem que tento. It, ni, san, shi, go, roku….puta que pariu. Shiti, haiti, kyu, dyu…. isso não vai ser tão tranquilo.


Diogo “Homem Elástico” Uehara. Foto: Guilherme Santana/VICE

***

Minutos antes, eu estava no primeiro ritual do dia: a colocação do mawashi, aquele cinto protetor que alguns incautos insistem em batizar de fraldão. A vestimenta, talvez a maior motivação do preconceito dos que não conhecem a arte marcial, é feita com um algodão grosso e exige toda uma técnica para ser usada. Você a encaixa nos bagos, deixa um pedação de sobra na frente e gira uma, duas, três vezes para o lado direito. Depois amarra a parada bem firme acima do cóccix.


Fraldão é o caralho. Aqui é mayashi, porra. Foto: Guilherme Santana/VICE

O mawashi serve, entre outras coisas, para ter onde segurar na hora de levar seu oponente ao chão. Quem me ajuda no rito é Diego Nunes Bezerra, de 22 anos, 14 deles dedicados ao sumô. Em sua estante de troféus está o tetracampeonato paulista. De 2008 a 2011 ele foi imbatível nas categorias infantil e juvenil. Assim como Diogo, fez curso de juíz e está apto também a ser mesário nas competições nacionais. Este ano só não foi para o mundial porque a categoria exigia que o lutador pesasse até 100 quillos e ele estava pouco mais de 100 gramas acima.

Diego não tem ascendência oriental e entrou no esporte quando foi levar sua bicicleta na bicicletaria do sensei Mauricio Uehara, pai do Diogo. “Ele me fez o convite, mas num primeiro momento hesitei”, me disse. “Eu já conhecia um pouco, já tinha visto na TV e via o pessoal usando aquela roupa que chamavam de fralda”. A insistência, porém, surtiu efeito. “Na semana seguinte voltei pra pegar a bicicleta e aceitei o convite.”

Dá para entender o preconceito do Diego e de uma galera em relação ao sumô. Sabe como é, você vê um monte de gordo pulando e acha que vai ser moleza. Mas, amigo, já que estamos numa conversa franca, não seja otário. Se tem uma coisa que não rola aqui é corpo mole..


Diego “Tetra” Bezerra. Foto: Guilherme Santana/VICE

O começo do martírio, a parte dolorida mesmo, se inicia com o shiko, aquele clássico movimento que os lutadores fazem de levantar a perna, voltar a agachar, levantar a outra dando substanciosos e intimidadores tapas nas coxas. “Vamos fazer 60 só pra esquentar um pouco”, comenta Diogo. It, ni, san… É, não vai dar. Ele, com excessiva desenvoltura para um cara de pouco mais de um metro e meio e mais de 110 quilos, faz o doloroso movimento como se estivesse levantando um copo d’água. A física não explica.

Dos 60 movimentos nem 30 consegui fazer. E o It, ni, san, shi dos outros ecoava junto da vergonha de pedir arrego antes da metade do treino. Do lado de fora do dohyô, algumas pessoas se acomodavam nas cadeiras de plástico. Antes da luta, eu já passava vergonha diante da comunidade nipônica do ABC. Se tivesse algum apostador de espreita, com certeza eu seria o menos cotado.


O shiko, o início da dor. Foto: Guilherme Santana/VICE

***

Depois do sofrimento com o shiko, parece que a ação vai começar. Alarme falso. Os lutadores descem do dohyô, se enxugam com suas toalhas e anunciam que começaremos o matawari. A informação, de início, não significou muita coisa. Poderia ser uma massagem ou prato de comida. Mas logo saquei que o tal matawari seria um dos maiores responsáveis pela dor nas coxas dos próximos dias – e, ato contínuo, pelo relaxante muscular que tomo enquanto redijo esse texto.


Chupa essa manga, Daiane dos Santos. Foto: Guilherme Santana/VICE

Com a insuportável leveza de um gafanhoto, Diogo repousa sua toalha azul no chão áspero de cimento e sem cerimônia vai abrindo as pernas até chegar ao nível máximo do espacate. Para aumentar a ostentação, ele inclina o corpo para frente e se deita como um ginasta olímpico. O sumotori se levanta, olha pra mim e dispara. “Agora é a sua vez.”. Ah tá.

Talvez não precisasse contar, mas não chego nem perto da abertura total das pernas. Com o limite que meu corpo enferrujado aguenta, consigo uns 63,7% de abrimento. Dói, dói pra cacete. Já sentado, tento alcançar a ponta do meu pé com as mãos, mas isso mais parece algum tipo de tortura oriental. Esporte de gordo é o caralho.


Alongamento de jornalista. Foto: Guilherme Santana/VICE

O cara que empurra minhas costas, na vã tentativa de uma elasticidade maior, é Igor Faires Ferreira, de 34 anos e 150 quilos. Embora ele tenha colaborado bastante para me fazer andar como pato velho nos próximos dias, é um cara de coração tão grande quanto seu exterior. Ele é o maior – em tamanho mesmo – dos lutadores que povoam o dohyô. Lutador de sumô há seis anos, ele ainda não conseguiu pódio e afirma que é porque começou a treinar velho. Foi sincero quanto ao meu debut no esporte. “No primeiro treino eu cansei pra caramba. Saí morrendo.”


“Monte” Igor Faires Ferreira. Foto: Guilherme Santana/VICE

Depois do matawari, os bravos lutadores voltam ao centro do ringue para simulações de situações reais de luta. Posição inicial, arranque e giro pra direita. Giro pra esquerda. Arranque até o meio do círculo e curva pra direita. Tudo muito vago, mas ainda assim um respiro para as pernas que apitavam desde o exercício anterior. Era o último aquecimento, avisaram.

Pronto, chegou a hora de deitar o cabelo pra cima de todo mundo, meter a porrada, sentar o sarrafo nos gordos. É o momento de lutar. O povo quer é ver sangue mesmo. É… Não foi bem assim, como você deve bem imaginar.

Do lado de fora assisto ao Igor, o gigante, e Diogo, o pequenino, se engalfinharem. O impacto deles se chocando é impressionante. Em meus confrontos com ambos não preciso nem dizer quem saiu vencedor, né?


Vixe, muita treta. Foto: Guilherme Santana/VICE

Com uma carpa oriental no peito e um cardápio infinito de lutas no currículo, Tiago Sales Bezerra, de 31 anos, está nessa de sumô há apenas seis meses, mas já entrou no calendário de competições e faturou um terceiro lugar num campeonato regional na categoria leve. Ele começou na modalidade para melhorar suas habilidades em outras lutas. “O meu intuito inicial era melhorar a base no judô. A base do sumô é perfeita, você não sai do chão”, ele conta. Além das duas lutas, ainda pratica e/ou praticou capoeira, karatê, jiu-jitsu, kickboxing, boxe e muay thai.


Carpa suada. Foto: Guilherme Santana/VICE

Ele se agacha na minha frente preparado para o tachi-ai, movimento de arranque dos sumotoris. Sua carpa no mamilo direito, já suada, parece maior e, mesmo pesando modestos 80 quilos, não será fácil jogá-lo para fora do círculo ou dar um rodo nele ali no meio. Não tenho técnica, não tenho estratégia, não tenho tática. Não tenho porra nenhuma. O que me resta é partir pra cima, deixar meu corpo bater no dele e ver no que dá. Deu ruim, óbvio. A única coisa que ganhei no confronto foi uma cabeçada no superciílio.


Luta do século. Foto: Guilherme Santana/VICE

Diego, o tetracampeão, também se agachou diante de mim para o confronto e já não me lembro mais se consegui botá-lo pra fora do dohyô. É importante ressaltar que todos os lutadores foram pacientes e mais me ensinavam do que me enfrentavam. Todos davam dicas preciosas de como encaixar o golpe, como segurar o mawashi do adversário, como usar a minha força no local certo, como usar a força do adversário a meu favor. Eles foram pacientes, é bem verdade.

Tímido em sua luta, Pedro Quintavalle, de 19 anos, tem uma técnica tão cagadamente apurada quanto a minha. Ele estava no segundo treino e revelava sentir dores no corpo – as mesmas que eu viria a colecionar depois. O cara estava mais engessado do que eu. “Foi uma experiência dolorosa, mas me fez bem”, ele diz. Coach de League of Legends nas horas vagas, o jovem pretende cursar a faculdade de tecnologia de informação no ano que vem. Ele parece encarar como um hobby. Um doloroso hobby, né. “Se eu tivesse pratica, eu tentaria aplicar golpes e fazer rotações”, me falou.Num confronto direto, acho que eu levava a melhor.


Pedro San, o novato. Foto: Guilherme Santana/VICE

Igor, o gigante, ainda me emprestou seu corpo para um último e mortífero treino. Ele fincava o pé no dohyô e eu, no auge do cansaço, precisava empurrá-lo até o outro lado. Tachi-ai, arranque e PLAU. Nada. A impressão que eu tinha era de tentar empurrar uma parede. Ele me empurrava de novo para fora do círculo e me instruía a melhorar o arranque, a pegada e aumentar a força. Beleza. PLAU. Nada de novo. Até o topo da minha cabeça começou a doer nessa hora. Na terceira vez peguei o ritmo. E, num bailar estranho, consegui chegar ao outro lado.

De novo. De novo. It, ni, san… Na quarta vez, com ainda menos força, a vista escureceu e a água que tomei num ou outro intervalo quase voltou ali no meio do dohyô diante de toda a comunidade nipônica do ABC. Já me sentindo uma gelatina humana, consegui – claro que com uma amolecida do Monte Igor – me arrastar pelos poucos metros de terra vermelha. Com a sinceridade de um samurai, ele me disse que “provavelmente você não conseguiria me tirar do lugar, porque o trabalho do sumô é com base no quadril e na coxa e isso requer tempo.”


Deus, é você me chamando? Foto: Guilherme Santana/VICE

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Do lado de fora, atento a todos os movimentos, estava Saburo Uehara, o mestre. Aos 86 anos, ele ostenta os títulos de campeão brasileiro de 1954 e de fundador da Associação de Sumô do ABC. Ele é um saudosista do Velho Sumô, algo que nem sabia existir até então. “Antigamente tinha muito golpe. Esse sumô de agora é técnico, mas não tem muita força. Naquele tempo lá jogava no chão, batia mais”, recorda.

Vindo do Japão com apenas seis meses, ele foi treinado por um rikishi [lutador que configurava no ranking] que disputou os campeonatos japoneses. Ele me explicou também que a única modalidade profissional do sumô é a disputada no Japão. Fora de lá é todo mundo amador e ponto final.


O mestre Uehara. Foto: Guilherme Santana/VICE

O Uehara sênior avalia o desempenho de seu genro, Mauricio Uehara, e de seu neto Diogo. “Ele [Mauricio] era mais ou menos. Diogo é bom. Tecnicamente ele é muito bom, mas falta força.”

Mauricio Uehara, o pai de Diogo, é um dos grandes responsáveis pela associação continuar com as portas abertas. É bom frisar: é facílimo lutar sumô em São Paulo, tanto em Santo André quanto no Bom Retiro as aulas são de graça.

Aos 49 anos, Mauricio vestiu o mawashi até 2011. “Parei porque chegou um momento que meu filho já tava bem treinado. Não dava mais pra competir ou treinar. Eu já não tava mais conseguindo nem ganhar dele”, ele ri.

Ele afirma que o sumô é mais do que um esporte, é uma família, é a good vibe do pós treino. E fez questão de enumeras as coisas que aprendeu dentro e fora do círculo de luta. “O sumô me ensinou respeito, disciplina, hierarquia. Depois que termina o treino a gente sempre faz uma fila para agradecer aos mais velhos que estão assistindo e que nos passaram as técnicas”, diz. Sobre o empenho do filho único, ele se desdobra em elogios. “Tenho orgulho do Diogo, sim, porque é uma coisa que eu gosto e ele aprendeu a gostar. Ele é a continuidade disso e se ele tá continuando é porque ele quer ver isso seguir.”


Bang cabuloso. Foto: Guilherme Santana/VICE

As pernas doem, as costas, os braços, a cabeça, o pé direito, o supercílio. Tô todo cagado mesmo. O dia seguinte exigiu um treino de imobilidade absoluta, uma visita ao Hospital Samaritano, um relaxante muscular em formato de injeção na bunda e um demorado soro com anti-inflamatório a conta gotas para não dar enjoo. E sabe o que é mais assustador? Maurício confessou que o treino que participei foi, no máximo, 25% do padrão dos lutadores. Só de shiko, diz, eles costumam fazer mais de 150 repetições. Nesse caso, pensei, seria bom deixar uma ambulância estacionada ali do lado.

A vida pós-sumô anda bem chatinha, cheia de não-me-toques e cuidados para descer escadas ou subir no busão. Não me desenvolvi como o E. Honda, não me tornei um mestre como o Pai Mei. Definitivamente não tenho vocação pra Bruce Lee, mas enxerguei muita beleza no sumô. É um esporte que, apesar do tamanho de seus atletas, exige leveza e perseverança. Requer respeito e um relaxante muscular vez ou outra. Dizem que uma hora seu corpo se acostuma. Ainda não sei se acredito. Da próxima estarei ali apoiando – mas sentadinho na plateia. Desculpa aí, galera. Vou voltar pro semi-sedentarismo porque esse monte de exercício deu ruim. Pelo menos vocês ganharam um torcedor.


Crianças, não repitam isso em casa. Foto: Guilherme Santana/VICE

Veja toda a iniciação do sumô pelas lentes de Guilherme Santana.


Foto: Guilherme Santana/VICE


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