Ultraviolência no Egito

Você já deve estar sabendo que na quarta-feira 71 pessoas foram mortas e mais de 300 ficaram feridas num violento confronto depois de uma partida de futebol entre o Al Ahly do Cairo e o Al Masry de Porto Said. Em qualquer outro lugar do mundo, uma lista de baixas como essa provavelmente seria resultado de uma combinação de estádios precários e explosão espontânea de fúria em massa. Mas no Egito, a história é permeada de camadas preexistentes de suspeita e ressentimento. No centro de tudo isso estão os “ultras” — algo como as torcidas organizadas, só que mais hardcore — e sua vingança contra a polícia e o exército. Desde os trágicos eventos da noite de quarta, mais manifestações contra o governo têm acontecido por todo o país, e o número de mortes aumenta, com pelo menos mais três casos fatais até agora.

Torcedores do Al Ahly feridos chegaram ao Cairo às 5 da manhã da quinta, e foram recebidos por milhares de simpatizantes que lotaram a principal estação de trem do Cairo.

Muitas pessoas seguravam as lágrimas. Achamos que as coisas iriam começar já naquela madrugada, já que os familiares e amigos dos mortos estavam furiosos. Mas no final, eles se dispersaram, e se reagruparam para uma marcha do estádio do Al Ahly até o Ministério do Interior no final da quinta-feira.

O Ministro do Interior controla as Forças de Segurança Central (CSF), a tropa de choque. E como já era de se imaginar, os ultras e outros manifestantes os atacaram.


Minutos antes do início do confronto.

Torcedores acendem fogos de artifício num protesto próximo ao Ministério do Interior.

As coisas foram surpreendentemente pacíficas por um tempo, mas de repente a raiva explodiu. Muitas pessoas tinham perdido amigos no confronto de Porto Said, e muitos pareciam culpar as CSF ou o conselho militar que comanda o país. Para entender o por que, é bom conhecer um pouco mais sobre os ultras e seu ódio profundo contra a polícia.

Revolucionários do ultra perseguem as CSF rua abaixo. Segundos depois, eles tiverem que retroceder por causa de uma gigantesca nuvem de gás lacrimogêneo.

Os ultras tiraram seu nome e código de honra das torcidas organizadas italianas dos anos 60: apoio fanático ao time, nenhum medo da polícia. Diferente dos torcedores da Inglaterra, cuja reputação política é baseada principalmente em cerveja e racismo, os egípcios lutam nas ruas contra os militares. Meu amigo Mahmoud é um membro dos Ultras Ahlawy, torcedores dedicados do Al Ahly, o time de maior sucesso do Egito. Ele perdeu o jogo na quarta-feira, mas conversou comigo sobre os ultras, e sobre o que ele pensa da violência.

VICE: Os ultras foram formados em 2007, mas quando vocês pararam de brigar uns com os outros e começaram a enfrentar a polícia?
Foram dois momentos decisivos. O primeiro depois de uma briga em 2008 com os fãs do Zamalek onde um membro da torcida deles foi incendiado. Ele ficou coberto de petróleo jogado por outro cara do seu próprio lado, e então alguém jogou o fogo. Os serviços de segurança torturaram alguns de nós. O outro momento foi quando eles tentaram nos parar mandando uma mensagem de apoio aos palestinos antes de um jogo durante o massacre de Gaza em 2009. Depois disso, fizemos camisetas que diziam “todos os policiais são filhos da puta”.


ACAB: gíria ultra internacional para “All Cops Are Bastards”.

Mas vocês não são hooligans, certo, vocês são ultras e isso é diferente?
Os ultras são um pouco mais pacíficos. Estamos mais preocupados em dar apoio ao time. Não fazemos nada que reflita negativamente para o clube. Hooligans só querem atacar os torcedores dos outros times. Mas aqui no Egito não temos nenhum grupo hooligan.

Dezenas de pessoas feridas foram retiradas em motos e ambulâncias. Organizadores escolhidos na hora mantinham o caminho livre para a passagem deles.

E o que aconteceu quando veio a revolução?
A maioria dos caras se encontrou aleatoriamente na Praça Tahir depois de lutar com a polícia no primeiro dia. E no dia seguinte, quando eles nos forçaram a sair, nos juntamos a ultras de outros times, atacando a polícia apenas para cansá-la. Dois dias depois tomamos a praça de vez. Na semana seguinte lutamos na “batalha do camelo”. Nos confrontos de novembro, vários caras do nosso lado foram mortos.

Ultras lutando na Rua Mohammed Mahmoud em Novembro.

O dia do desastre no jogo de Porto Said era o aniversário de um ano da batalha do camelo?
Sim. Achamos que certas pessoas queriam vingança contra os Ultras Ahlway. Achamos que Tantawi [o líder da junta militar egípcia] e o Ministro do Interior são os responsáveis.

Ativistas conseguiram demolir o muro da rua Mohammed Mahmoud, alavancando e puxando enormes blocos de concreto de um metro quadrado. Com o muro destruído, ficou mais fácil retirar os feridos e escapar do gás lacrimogêneo no Ministério do Interior.

Na noite de quarta a torcida gritava “kussumak Port Saidi”, que quer dizer algo como “Foda-se Porto Said”. Mas muitas pessoas estavam tentando puxar gritos diferentes, e havia muita gente pedindo a queda do governo. Você acha que os torcedores do Porto Said tiveram alguma responsabilidade no caso? Um colega meu de Porto Said disse que conversou com os ultras do Al Masry e eles afirmaram que não estavam envolvidos.
Não faz sentido os torcedores deles atacarem depois de vencerem por 3 a 1. Provavelmente alguns deles estavam envolvidos. Mas como armas entraram no estádio? E por que as Forças de Segurança Central não fizeram nada? Parece que de alguma forma eles deram chaves aos criminosos para que eles conseguissem atravessar os portões e chegar até o gramado. As CSF odeiam os ultras, especialmente o Ultra Ahlway, disso a gente sabe.

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