Blake Bailey é o autor de Cheever: A Life, publicado no ano passado pela Knopf. Seu livro anterior, A Tragic Honesty: The Life and Work of Richard Yates, foi finalista do National Book Critics Award. Sobre a história que segue, Blake conta que “Assim como o irmão do narrador, Todd, meu próprio irmão tomou muitas drogas e acabou se matando numa cela de cadeia. Ele também tinha um ótimo senso de humor, e isso é algo do qual sinto muita falta. Quanto aos outros elementos da história, prefiro considerá-los como ficção, mais ou menos.
“No momento, estou trabalhando na biografia de Charles Jackson—autor de The Lost Weekend e de outros romances—que era um homem muito gentil e um completo viciado. Então, voltar para a história do meu irmão talvez seja uma forma de tentar rever essas questões.”
Como adultos, eu e meu irmão Todd não tínhamos muito em comum, com exceção da família, então, normalmente falávamos dela; a segunda mulher do nosso pai era uma perua neurótica chamada Martha, que com o tempo nos jogou na escuridão extrema—Todd, o criminoso ex-fuzileiro naval e eu, o bom filho, um professor de boa reputação. Então, sempre relembrávamos de histórias da vaca que ela era. Além disso, eu costumava perguntar a ele que tipo de droga ele estava usando. Todd recuava e olhava para mim se fingindo de sério.
Uma vez, quando estávamos bebendo juntos—sua vida tinha acabado de virar uma merda pela enésima vez—, ele, com um olhar sacana, disse:
“Mamãe nunca vai desistir de mim.”
Neste aspecto, ele era mais visionário que eu. Pouco depois disso, ele perdeu outro dos seus muitos empregos de merda e destruiu o carro de um amigo enquanto dirigia bêbado (seu próprio carro—um BMW velho que ele tinha ganhado do nosso pai há muito tempo—estava na oficina). Ele acabou no hospital com um ferimento grave na cabeça. Logo em seguida, nossa tempestuosa, resignada e bondosa mamãe disse que já estava cheia daquele babaca, que ele poderia apodrecer no hospital, e por aí vai. Mas um mês depois, ele estava morando com ela.
“O que eu ia fazer?”, ela me disse, freneticamente. “Ele está tão fraco! Sua pele está cinza! Ele vai morrer se eu não ajudar.”
“Deixa ele morrer!”
“Não diga uma coisa dessas. Você não quer isso de verdade.”
“Deixa ele morrer. Melhor ele que você!”
Mas ela não o deixava morrer. Todd convalescia no seu sofá, silenciosamente, e parecia pouco se dar conta da sua presença. Ele nunca ia a nenhum lugar, pois não tinha lugar nenhum para ir. Ele e sua namorada maluca—uma mulher vagamente arábica chamada Zhila—não estavam nesse momento, e uma grande quantidade de analgésicos o deixava apto para cumprir apenas uma única missão. Ele só levantava pra ir ao banheiro, e parecia contente em ficar lá uma eternidade, até que suprisse suas necessidades.
Nem minha mãe aguentava mais; Todd parecia a corporificação de cera de tudo que dera errado na vida dela. Depois de mais ou menos uma semana, ela pediu para ele ir embora.
“Por quê?”, ele perguntou, levemente magoado.
“É que você é muito deprimente, Todd.”
“Por quê?”
“Vá ao hospital. Você precisa de ajuda!”
“Não tem nada de errado comigo.”
Mas finalmente ele foi embora. Enquanto ele tivesse suas coisas guardadas no depósito da minha mãe e ela fornecesse seu único endereço fixo, consequentemente recebendo sua correspondência (revistas como Tiger Beat e Stereo Review, muitas contas atrasadas, seu cheque mensal de invalidez pelos ferimentos nas costas e pescoço, e literatura motivacional, com títulos como “15 Minutos Que Mudarão Sua Vida!” que continuaram chegando por anos e anos), ele sabia que tinha motivos suficientes para voltar.
Um dia ele apareceu pedindo dinheiro. Ele precisava de $100 para segurar as pontas até o fim do mês. Como ele já devia bastante di-nheiro para minha mãe e sabia que ela não lhe daria mais até que ele fizesse um esforço para diminuir sua dívida, ele ofereceu assinar um cheque pré-datado. Ele mencionou, com certo orgulho, que estava economizando por morar no próprio carro; na verdade, os $100 eram necessários para fazer pequenos consertos no mesmo. O carro era velho.
Ele falava num tom monotônico acelerado, como se tivesse ensaiado o discurso mil vezes, e quisesse terminar com a coisa toda logo. Seu olhar parecia atravessar minha mãe e se fixar no dinheiro, e o que quer que fosse que ele compraria com ele. Ela sabia que ele não sairia sem os $100, e o mais importante era fazê-lo ir embora. Ela disse que teria que sacar dinheiro num caixa eletrônico, e sugeriu que ele ficasse à vontade em casa e comesse algo, mas ele preferiu segui-la no seu carro.
A casa do campo da minha mãe ficava a pouco mais de um quilômetro do caixa eletrônico mais próximo e, em nenhum momento, Todd ficou mais do que um ou dois metros de distância do pára-choque traseiro dela. O barulho do seu som fazia com que tudo parecesse mais ameaçador, como se ela estivesse pra ser engolida por um tsunami. Nos semáforos, minha mãe agitava seu punho para Todd pelo espelho retrovisor, balbuciava obscenidades, apelava para a crença dele em qualquer divindade benevolente, mas toda vez via no espelho o mesmo olhar determinado. Finalmente eles chegaram ao caixa. Minha mãe pegou o dinheiro, estacionou e correu em direção ao BMW, onde meu irmão estava sentado.
“Você perdeu o juízo? Está tentando nos matar?”
Todd refletiu. “Acho que sou mesmo um grande filho da puta”, disse.
“Olhe para você!” Ela se enfiou no carro e ajustou o retrovisor traseiro; Todd atendeu seu pedido e se olhou no espelho. “Você precisa procurar ajuda!”
Ele baixou seus olhos e suspirou. “Você está certa. Vou procurar.”
“Não dá pra você continuar assim!”
“Eu sei. Você tem razão.”
Ela lhe deu o dinheiro. “Promete?”
Ele assentiu com a cabeça, como um garotinho prestes a chorar. Ela beijou sua bochecha—tão pálida e doente que nem suportaria uma espinha—e pediu que ele ligasse para ela mais tarde.
Algumas semanas depois, ele ligou pra ela da cadeia. A polícia tinha encontrado Todd dormindo no seu carro do lado de fora de uma boca de crack (imagino o local com uma placa de sinalização); encontraram drogas no carro, etc… Ainda assim, poderia ter sido melhor se Todd tivesse colaborado, mas suponho que ele resistiu o que pôde, e por isso pegou uma sentença de três anos. Em algum momento ali, o cheque pré-datado voltou.
Depois de ter sido preso do lado de fora da boca de crack, Todd não parava de falar do processo judicial que moveria contra a polícia da Cidade de Oklahoma. “Isso vai estar no meu processo!”, ele gostava de dizer, chamando a si mesmo de “o Rodney King branco”. Sua postura quixotesca me divertia, mas ao mesmo tempo ele falava sério.
No começo, Todd ficou numa prisão de segurança mínima. Até o deixaram dar uma espécie de curso de literatura, uma vez que não passou despercebido que ele lia muito (revistas e livros da biblioteca relacionados ao seu processo) e levava jeito com as pala-vras. Apesar de que sua tagarelisse acabava lhe rendendo muitos problemas. Era difícil dizer quem o odiava mais, os guardas ou os internos; de qualquer forma, ele recebeu muitas advertências até que um dia alguém tocou fogo nos seus cabelos enquanto dormia. Depois disso ele foi transferido para uma prisão de segurança média, onde minha mãe e eu o visitamos.
Era um lugar sinistro. Ficamos numa pequena gaiola de segurança do lado de fora dos muros enquanto éramos identificados por uma câmera de vídeo; então, depois de uma revista criteriosa, nos conduziram até uma cafeteria imunda onde os internos encontravam suas famílias nos dias de visita. Minha mãe tinha embalado um almoço elaborado, e nós preenchemos os minutos vazios abrindo muitos recipientes e enchendo nossos pratos. Depois, nos sentamos no calor infectado e esperamos. Finalmente meu irmão apareceu, junto com vários outros internos que se dispersaram entre as mesas de seus entes queridos.

Todd me abraçou com força, pressionando minha cabeça contra seu peito ossudo. “Olha pra você!”, ele disse, me observando à distância de um braço. “Meu Deus, acho que ele está quase tão lindo como eu!”
Sentados para comer, minha mãe disse sobre Todd (apesar de ele estar ausente ou surdo), “Não acho que ele seja mais tão bonito. O que você acha?”
Seu tom implicava que o tema deveria ser debatido, e restava a mim dizer o que eu achava. Olhei para o Todd—mastigando, impávido, esperando meu veredito para o bem ou para o mal.
“Pra mim, ele está bonito”, eu disse. “Levando tudo em consideração.”
“Viu?”, disse Todd. “Jovem para sempre.”
Ele continuou comendo como sempre, mastigando meticulosamente, às vezes retirando um pedaço de gordura mastigada e colocando-o no prato ao lado. Eu notei que ele estava perdendo cabelos na região das têmporas e afinando no topo também (ou talvez fosse onde seus cabelos pegaram fogo). O meio da sua testa estava cheia de pequenas rugas irregulares, que eu pensei serem cicatrizes de acne, até Todd me contar que eram de cabeçadas.
Depois do almoço fomos todos para a área externa, onde podíamos nos sentar às mesas de piquenique ou caminhar pela grama. Não lembro como, mas arrumamos uma bola meio murcha de futebol americano e arremessamos um pouco, depois nos juntamos à nossa mãe numa das mesas de piquenique debaixo de uma sombra. Ela observava nossa conversa de maneira abstrata, como se estivesse tentando nos ver como crianças. Por um tempo Todd só falava do seu processo—daquele jeito dele, meio sério, meio brincando—, então, de repente, deixou o assunto de lado e começou a falar de mim. Ele queria saber cada detalhe da minha vida, ou tantos quanto eu pudesse descrever na meia hora que nos restava: Como eu tinha conhecido minha namorada? Se tínhamos dormido juntos na primeira noite? Quanto eu ganhava como professor? Era difícil tirar o certificado? Qual carro eu estava dirigindo?
Então, era hora de ir.
“Bom, Todd…”
“Bom…”
E ele me puxou e deu um tapa, um tanto forte, nas minhas costas enquanto me abraçava. Ele não soltou minha mãe durante muito tempo; começou a chorar e não queria que os outros vissem. Finalmente, enxugou as lágrimas nos ombros dela e se despediu com um breve soluço. Do outro lado do portão, nos viramos mais uma vez para ele e acenamos; ele conseguiu sorrir enquanto brincava displicentemente com a bola nos pés.
Quando Todd saiu da prisão ele foi para a casa da minha mãe por uns meses, mas não deu certo. Eles tinham feito um trato: ele não poderia beber mais do que duas cervejas por dia e teria que se sustentar fazendo trabalhos irregulares, como alimentar animais, pintar celeiros, remover as ervas daninhas do jardim—esse tipo de coisa. Funcionou por mais ou menos uma semana; depois, duas cervejas viraram três e assim por diante. Uma noite ele, bêbado, agrediu nossa mãe, e quando eu fui pra casa para o Natal e chamei os policiais para que o retirassem de lá, ele ameaçou me matar. Mas, pouco depois, ele estava de volta à prisão.
Naturalmente nos preocupamos com o fato de ele sair novamente. Ele parecia capaz de qualquer coisa. Minha mãe ainda atendia seus telefonemas e podia atestar o fato de que ele tinha más intenções em relação a mim, meu pai e nossa madrasta Martha (com quem eu finalmente tinha me reconciliado, tama-nha nossa solidariedade em relação ao Todd). Por muitos anos, por mais estranho que pareça, meu irmão se considerava um cristão convertido, e minha mãe tentava adverti-lo com essas palavras: “A mim a vingança, a mim exercer a justiça, diz o Senhor”, toda vez que ele dava a entender que queria nos matar ou nos machucar, ou “Dê a outra face!”—apesar de que as Escrituras surtiam pouco efeito sob Todd, uma vez que seu entendimento da vontade de Deus era bem subjetivo.
Mas não precisávamos ter nos preocupado. O Todd que deixou a prisão alguns anos depois era incapaz de fazer mal a qualquer um a não ser a ele mesmo, e foi exatamente isso o que ele fez. Um dia depois de ser solto, ele caiu do terceiro andar de um compartimento de armazenamento, balançando outro compartimento durante a queda e, na tentativa de interromper a queda, teve grandes lascas de pele arrancadas dos dois braços. Me atrevo a dizer que o processo de examinar aqueles pertences inúteis—roupas malucas, revistas velhas, cartas, caixas de discos empoeirados—tinha sido um negócio intensamente melancólico e, sem dúvida, ele tinha ficado bêbado durante o processo.
De volta à Cidade de Oklahoma, enfaixado como uma múmia, ele pegou um quarto num pequeno motel fora do Classen Circle. (Eu fui ver outro dia: “diária de 19 dólares/taxas semanais disponíveis”—era o nome do lugar. O bairro era esquálido, claro, mas notei que nossa querida e velha escola era visível a distância, onde a ignorância era uma bênção.) Enquanto Todd estava na prisão pela segunda vez, minha mãe conseguiu com que seus cheques mensais de invalidez fossem depositados numa conta que rendia juros bem altos, e que Todd conseguiu limpar no primeiro mês de liberdade. Sua namorada maluca, Zhila, era uma fanática religiosa que ligava para minha mãe a cada dois dias e dizia entre soluços naquele nebuloso sotaque dela, “Ele está fumando crack o tempo todo! Ele está tentando fazer com que eu fume crack!” Durante a maior parte da sua vida adulta—não me pergunte como—Todd tinha conseguido separar sua vida de crack e malandragem da sua vida de Zhila e igreja, mas agora os mundos se misturavam e deve ter sido desconcertante para todos os envolvidos. Zhila surpreendeu Todd com estranhos senhores negros; Todd apareceu na missa da Igreja Batista num estado visivelmente alterado. Quando, no entanto, minha mãe marcou de encontrar Todd para almoçar, ela foi até seu quarto no motel e não viu nada fora de ordem, apenas umas cervejas no gelo dentro da pia do banheiro. O rosto de Todd estava meio acinzentado, detonado, macilento, mas, fora isso, estava bem.
“Oh, aquela maldita Zhila, sempre foi uma completa maluca”, ela me disse depois.
“Todd está bem! Bem, não super bem, mas eu já o vi pior…”
Mais ou menos uma semana depois, Todd ligou para ela para dizer que estava duro, extremamente falido. “Eu não sei”, ele disse, no mesmo tom triste que usou quando disse ao meu pai, 25 anos antes, que tinha largado a NYU depois de um único semestre. “Eu não sei, mãe”—de novo e de novo. Ele queria morar com ela novamente. Virar uma nova página. Quando ela se recusou ele suspirou, mas ofereceu pouca resistência; neste caso, ele disse, queria passar e pegar seu aparelho de som, sua última posse de valor, que ela manteve no depósito enquanto ele estava preso. Minha mãe o proibiu de chegar perto da sua casa, mas conseguiu com que seu antigo namorado Bill—um amigo querido da família durante esses anos todos—o levasse para o motel de Todd.
“Como ele estava?”, perguntei ao Bill poucos meses depois.
Ele começou a falar e seus olhos se encheram de lágrimas. Bill sempre gostou do Todd e vice-versa. Ele balançou a cabeça e disse, “Saí de lá me sentindo muito sortudo”.
Todd tinha decidido virar pastor. Para aqueles que se perguntam de onde surgem essas pessoas, pode ser interessante saber que existem campos de treinamento onde você pode ficar um mês estudando a Bíblia, praticando gestos declamatórios e, talvez, aprendendo alguns fundamentos financeiros—imagino eu. Mas tanto faz, você poder sair de lá com uma espécie de diploma, um sacerdote oficial, tudo isso por $500. Pelo menos no campo que Todd pretendia frequentar—até aí tudo bem: ele tinha conseguido quase $800 no seu elaborado aparelho de som e ligou para nossa mãe num estado jubiloso. Ele iria para lá na sexta, disse, e dentro de um mês seria um genuíno pescador de homens. Ele já deplorava o pecador que tinha sido no passado, sem mencionar sua mãe e toda sua família ateia—fadados ao inferno.
Na sexta, infelizmente, o dinheiro já não existia mais. “Eu não sei, eu não sei,” ele disse a Zhila, implorando-lhe que lhe comprasse uma garrafa de gim e o levasse ao cinema, qualquer filme, qualquer coisa que o tirasse de dentro de si mesmo. No cinema, Todd bebeu toda a garrafa e começou uma espécie de choramingo, o que fez com que as pessoas mudassem de lugar ou saíssem da sala. Qualquer estranho podia ver que Todd estava se afundando, afogado.
No sábado, com um dia de atraso, Zhila o deixou no campo de treinamento para pastores. Ela tinha decidido lhe emprestar $500; ela rezava para que Deus interviesse e fizesse de Todd um bom pastor—aí, talvez, eles pudessem se casar. Na segunda-feira, ou pediram que ele deixasse o campo ou ele decidiu fugir com o dinheiro da Zhila. De um jeito ou de outro, ele desapareceu por um tempo.
Recebi as notícias pela minha mãe, que acabou com aquele inútil, miserável, filho da puta e jurou nunca mais confiar nele outra vez, etc… Poucos dias depois, meu pai ligou: “Alguma notícia do seu irmão?”, perguntou, com a hesitação usual, e eu contei a ele toda a história—o campo de treinamento, o som penhorado, a garrafa de gim e tudo mais. Contei para que ríssemos, mas meu pai não riu; Todd ainda teria que se tornar uma figura cômica remota aos seus olhos. Quando mencionei a parte das pessoas no cinema se afastando do bêbado coitado do Todd, meu pai fez um barulho como se tivesse sido esfaqueado no estômago.
O Todd ressurgiu no dia de São Valentim e ligou para nossa mãe. No momento que ela ouviu sua voz, ela deixou escapar um tufão de insultos, até que, finalmente, seus anátemas se esgotaram, e então ela esperou pela sua engenhosa contradição usual. Mas não houve nenhuma. Silêncio.
“… Todd? Você está aí?”
Ele respirou. Estava lá.
Finalmente ela disse, “Bem, é dia de São Valentim. Vamos. Te levo para almoçar”.
Eles se encontraram numa esquina perto de um restaurante chinês que minha mãe gostava de ir. Não estava particularmente frio, mas Todd estava sem casa outra vez, e vestia o que lembrava o seu guarda-roupa em camadas. A impressão que dava é de que ele era musculoso. Assim que se sentaram, minha mãe deu uma boa olhada no seu filho, ou o que sobrava dele—o rosto ossudo que nem mesmo ela podia mais desejar que voltasse a ser saudável. Sua palidez denunciava a fraqueza de um rim, e de seus olhos vazavam lágrimas de cansaço, uma após a outra, passando pela barba grisalha e caindo subitamente no prato. Uma depois da outra. Todd empurrou seu prato de comida e chorou.
Minha mãe ficou desconcertada. “Todd, você precisa de ajuda”, ela disse.
Ele assentiu, enfiou seu rosto num guardanapo e tentou se recompor. Ele deixou escapar um suspiro estremecido, assuou seu nariz no guardanapo, e disse, mal e mal num sussurro, “Eu sei, mãe”.
Ela disse que poderia levá-lo a um hospital, mas ele recusou balançando a cabeça. Depois de uma pausa ela repetiu, de novo e de novo, uma variação da observação “Você precisa de ajuda”, e Todd concordava. A conclusão do almoço foi que ela achou um apartamento para ele e pagou o primeiro mês de aluguel.

Naquela tarde ela me ligou.
“Ele precisa de dinheiro!”, ela disse. “Ele precisa comer! Ele está morrendo! Ele não consegue pagar a conta da calefação!”
E por aí vai. Eu ouvi, surpreso. “Onde isso vai terminar?”, perguntei a ela.
“Eu não sei! Não podemos simplesmente deixá-lo morrer, ou podemos?”
Mas eu detectei, ou achei ter detectado, um tom indagador no fim daquela “ou podemos?”—como se ela estivesse buscando permissão ou ao menos examinando meu ponto de vista.
“Deixa ele ir”, eu disse. “Deixe ele ir.”
Mas ela não conseguia. “Eu não posso! Ligue para o seu pai!”
“Por quê?”
“Não sei o que fazer!”
E ela rompeu em lágrimas. Então eu liguei pro meu pai e expliquei o que tinha acontecido. Conforme envelhecia, meu pai raramente perdia a calma, mas uma catarse, no caso de Todd, estava há muito tempo atrasada.
“Ele tem 42 anos! Fala para ele se jogar de um prédio!”
Todd concordaria, uma vez que mais ou menos na mesma época ele subiu de elevador até o topo do Penn Place—o edifício mais alto da região suburbana da Cidade de Oklahoma, onde tínhamos crescido—, mas a porta de acesso à cobertura estava trancada, então ele voltou a descer. Escutei isso de um dos poucos amigos de Todd, o Thomas, um músico frustrado que tinha se mudado para Boston poucos anos antes (deixando Todd ainda mais amargurado na Cidade de Oklahoma). Um dia o Todd ligou para o Thomas e mencionou que estava tentando se matar, mas estava sendo impedido por coisas estúpidas como portas trancadas.
“O Penn Place não é o único prédio alto da Cidade de Oklahoma”, o Thomas observou.
“Não, mas é o único por perto”, disse o Todd. “Eu teria que pegar um ônibus para o centro, entende? Pagar um dólar. É foda.”
Certamente tamanha apatia foi motivo de uma hipérbole cômica. Thomas riu. Todd riu. Foi uma conversa divertida. Num determinado momento, Todd disse alguma coisa como “Fui preso duas vezes e minhas costas malditas doem o tempo todo. Tenho uma aparência de merda. Ninguém me empregaria. Ninguém mais quer me ver. O que você faria se fosse eu, Thomas?”
“Falando em pergunta retórica”, seu amigo riu. Aí (isso ele me disse mais tarde), ele logo disse que estava brincando, é claro, e encorajou o Todd a buscar ajuda.
Todd não procurou ajuda, até que uma noite acabou sendo preso novamente. Minha mãe ligou para a delegacia e soube que ele era acusado de invasão de domicílio; além disso, ele havia cuspido nos policiais que o prenderam e levado uma boa surra por isso.
Todd saiu com uma certa bravata; o arrependido fantasma que colocou o prato de lado no dia de São Valentim tinha, durante suas últimas semanas de vida, desaparecido. Como sempre, minha mãe ficava de olho nele na prisão do condado, um lugar medonho, onde ele era, de acordo com todos, um verdadeiro fio condutor eletrizado: ele falava com os guardas e com os outros prisioneiros da mesma forma, era frequentemente advertido e surrado, e finalmente foi colocado na solitária para sua própria segurança. O Rodney King branco de novo.
No final minha mãe acreditava que, se ao menos Todd conseguisse parar de beber e de usar drogas, ele se tornaria um cidadão produtivo. Ela sempre dizia isso quando falava com ele ao telefone.
“Não tem nada de errado comigo”, Todd respondia, e uma noite pediu que ela buscasse uma caneta. Ele começou a recitar um ressentido bilhete suicida. As partes cari-nhosas eram para Zhila; o que ele tinha a dizer para mim e meu pai era amoroso mas desafiante: “Sinto falta de vocês, seus pagãos de merda”.
“Então eu vou pro inferno”, eu disse quando minha mãe me contou. “Isso significa que ele finalmente vai se matar ou o quê?”
Minha mãe achou minha irreverência deplorável e lembrou que o bilhete tinha sido ditado na semana anterior e que Todd ainda estava vivo, até onde ela sabia. Então, talvez ele tivesse mudado de ideia.
Ele não tinha mudado de ideia. Na verdade, estava esperando uma ocasião apropriada—Sexta-Feira Santa, apesar de que, pela forma que aconteceu, eu não sei dizer se o Todd se identificava mais com o martirizado Cristo ou com o “bom ladrão” Dimas (“hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”). De qualquer forma, pouco antes da meia-noite, ele fez um nó com seus lençóis e se estrangulou na cama. Esforços posteriores para reavivá-lo foram inúteis.
Minha mãe gosta de contar como recebeu a notícia naquela noite, o que comprova seu amor pelo macabro. Ela tinha acabado de se levantar com dores de barriga terríveis quando o telefone tocou, ela sabia que eram más notícias, e sabia que tinha a ver com Todd, mas ela estava tão mal que teve de segurar o telefone sem fio com uma mão e manusear suas calcinhas com a outra. Assim que ela descarregou no vaso o padre disse, “Receio ter más notícias…”.
“E acho que ele deve ter ouvido alguma coisa”, disse minha mãe, “pois ele hesitou um instante, sabe? Depois pediu que eu rezasse com ele. Pediu para que eu me ajoelhasse. Então eu disse, ‘Pronto, vá em frente’, mas o tempo todo eu estava sentada no vaso”.
Então, ela começa a chorar compulsivamente, vermelha feito uma beterraba, e finalmente se acalma com um suspiro. “Ai, Deus”, ela diz, esfregando o olho. “Pobre Todd.”
Eu pensava muito no meu irmão durante os meses seguintes a sua morte e, às vezes, chorava um pouco quando lembrava de ter lido “Clouds” de Rupert Brooke enquanto enterrávamos suas cinzas no cemitério de animais atrás da casa da minha mãe:
Dizem que os mortos não morrem, mas perduram
Perto dos herdeiros de suas dores e alegrias.
Penso que na calmaria do céu
Passeiam no sábio, majestoso e melancólico trem,
E observam a lua e os mares calmos e furiosos
E os homens indo e vindo na terra.
Parte de mim sabia que tudo isso era sentimental demais e muito pessoal—o desolado irmão caçula que poderia ter se esforçado mais, etc.—então, eu respirava fundo e pensava em outras coisas. Um luto melhor era quando eu ria de alguma coisa e percebia que Todd, e talvez só o Todd, teria rido também.
Me estranha o fato de eu não ter, nenhuma vez, sonhado com Todd depois da sua morte. Minha mãe diz a mesma coisa, e chega a ser ainda mais estranho no caso dela. Ela me diz que dia sim dia não visita o cemitério de animais, se senta no banco ao lado do túmulo de Todd e conversa com ele. Irracionalmente, ela concede a ele os poderes sobrenaturais dos mortos: “Você era um saco quando estava vivo, Todd”, ela diz carinhosamente, “então, amanhã, quero que você traga um pouco de chuva. Minhas ervas estão morrendo!” Mas na maioria das vezes ela dá broncas nele por sua ausência nos seus sonhos. “Por que nunca me visita?”
“Ele responde?”, perguntei um dia.
“Não”, ela disse. Ela bebeu seu Martini e ficou observando um beija-flor cantarolando e bicando o bebedouro ali na sua varanda. “Acho que ele está num lugar onde simplesmente não pensa mais em nós.”
E me lembrei porque eu tinha começado a chorar, trinta anos antes, naquele quarto nos fundos da casa da minha avó em Vinita. Todd tinha acabado de me contar sobre sua segunda família que vivia na outra dimensão, e, então, acrescentou—sem maldade nenhuma, como se estivesse simplesmente expressando um fato pungente, intratável—que um dia ele desapareceria nos braços amorosos deles para sempre.
“Você não vem nem nos visitar?”, solucei.
“Não”, ele disse, segurando minha mão. “Eu nunca voltarei.”
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