Uma academia de prostitutas

Para ensinar é preciso aprender, e “quando chegas a este mundo já tens de vir bem rodada”. A Paula tem 42 anos e estudou marketing e contabilidade. Tem trabalhos fixos – “sobretudo o marketing, a minha especialidade” – que compagina com uma ocupação extra, que declara através da epígrafe “outros”. Paula é prostituta. “De alto a baixo: não deixaria de sê-lo por nada deste mundo, adoro o meu trabalho”. E é Vip, porque o que cobra – 300 euros à hora – é upa-upa.

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Também é professora. Quando começou a desempenhar a profissão mais antiga do mundo, pensou que as suas futuras companheiras “não tinham porque sentir-se sozinhas”, como ela, “porque essa solidão é uma das coisas mais horríveis deste trabalho…não podes dizer a alguém há uma semana que sou puta, percebes? Isolas-te, encerras-te em ti própria e é nesse momento que aparece o estigma”. Por isso fundou Aprosex, que tenta cobrir as necessidades das prostitutas que trabalham em Espanha. “Estamos a falar das que o fazem livremente. Isso que fique bem claro, porque se não for assim, chama-se escravidão, e é um crime”.

A Paula não tem papas na língua. E é melhor que assim seja, porque a sua tarefa não é fácil: Educar “e ensinar que não são obrigadas a sujeitar-se ao que digam os homens, que é o que muitas pensam”. Pelo contrário: “Dizemos-lhes que levem as rédeas dos seus horários, dos seus serviços e das regras do jogo”. Não é fácil: “Elas pensam que os clientes vão atirá-las para cima de uma cama e ter sexo à bruta, que essa é a única opção, e que vão dizer-lhes “se tens três buracos, é por esses que vou foder-te”. Segundo esta empreendedora e acompanhante de luxo, que vive com o seu namorado há oito anos, “isto acontece porque os meios não ajudam” e “porque a gente vê muitos filmes”.

E os clientes, vêem demasiados filmes pornográficos? A pergunta é se com a sua experiência pode refutar o que muitos sociólogos defendem, desde há umas décadas: nas nossas sociedades contemporâneas o sexo quotidiano assemelha-se cada vez mais à sequência do porno. “Não, talvez pudesse acontecer há uns anos, mas acho que agora a gente está mais livre, não estou de acordo”.

Prostitutas community manager

Daqui a umas semanas – a meio de Janeiro – celebrar-se-á a segunda edição dos cursos da Aprosex que a Paula e as suas companheiras dão, em Barcelona. Workshops de cinco horas – há outros mais curtos que organiza esporadicamente em Madrid – para “raparigas, rapazes e transexuais”, com o “objectivo de perder o medo e dignificar a profissão”. À primeira edição, que aconteceu em Fevereiro deste ano, assistiram 25 mulheres “de toda a Espanha”, e a idade média esteve “entre os 35 e os 50 anos”. E as disciplinas? Desde truques sobre sexo, planos de poupança, a Finanças ou Segurança Social.

Dado o auge da oferta e dos contactos através da internet, também aprendem SEO e como posicionar-se na rede?

Claro, explicamos-lhe que palavras devem escolher para definir-se e distinguir-se do resto. As raparigas que começam sozinhas, e não vão a um apartamento ou a um clube, para que lhes fiquem com 50% ou 60% do que ganham, as que querem se independentes, têm de saber como gerir o seu perfil digital e outras coisas.

Que outras coisas devem aprender?

Por exemplo, que não têm que roubar fotografias a ninguém. É preciso gostar de si e mostrar-se tal e como se é. Muitas acham que estão gordas, ou que têm o peito descaído, mas depois os clientes dizem-lhes “uau, és tão boa” e sentem-se melhor e mais confiantes. É preciso que essa confiança seja um dado adquirido.[Neste momento a Paula conta-me uma história sobre um avô e uma estranha obsessão sexual que teve que viver na primeira pessoa, mas isso, diz-me, “é melhor reservá-lo para quem leia o meu livro”. Porque também tem um livro de memórias, versão em papel da sua bússola cibernética: O blog da Paula, umas Memórias de uma Geisha de mini-saia e flute de champagne, em vez de saque e óleo Bintsuke-abura].

O plano de Paula e Aprosex – “também oferecemos assessoramento legal e ajuda ginecológica” – consiste em, pouco a pouco, de queca em queca, conseguir dignificar a profissão: “Aqui há mulheres que trabalham na rua e cobram 30 euros e outras que ganham 3.000, mas a maneira de trabalhar é a mesma. O perfil do cliente de qualquer nível socio-económico é sexual e emocional. E sexual e emocionalmente todos respondemos a coisas semelhantes”. As prostitutas não são uma excepção : “Os clientes das raparigas de Montera também as levam a jantar. Talvez não vão a um hotel de cinco estrelas, mas também as levam por aí, e têm de estar preparadas”.

Falemos de tarifas. Quais são as regras? “Em primeiro lugar, o preço deve estabelecer-se em função da experiência sexual, porque aquilo que uma prostituta deve saber fazer é bom sexo. O segundo é a psicologia, depois a formação, e em quarto lugar o físico”. Quarto? “É verdade que te vendes através do teu corpo, como a montra de uma loja, mas o serviço vais prestá-lo com o teu savoir faire“.

Daqui a umas semanas a Paula dá um workshop de sexo anal. E depois os cursos. Primeiro o seu trabalho. E depois o outro trabalho. Não pára: agora está em Madrid, onde tem clientes fixos desde há sete anos – “há quem me tenha ligado para ir ver uma exposição ao Prado, sem sexo nem nada” – e depois volta a Barcelona, a sua base de operações. “Tenho bicho carpinteiro”, diz. “Também sou terapeuta sexual, tirei o curso há uns anos porque considero que é essencial para o trabalho de prostituta. O que é que faço se tenho alguém com um problema de ejaculação precoce, ou outro, que não aguenta uma erecção mais do que três minutos?”.

Outra coisa é a psicologia – “a puta tem de ser uma grande psicóloga” – um terreno ambivalente e relacionado com a dignidade: “Não posso entender, que em pleno século XXI uma rapariga não possa dizer, abertamente, que é prostituta, mas que por outro lado, não tenha vergonha de trabalhar numa caixa de supermercado por 600 euros por mês. A dignidade está em poder comer e pagar as tuas facturas. Nesta sociedade sempre falaram as mulheres que estão contra nós, mulheres que nunca na vida fizeram uma mamada por dinheiro…e talvez nem por prazer. Eu prefiro foder em vez de ser fodida”.

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