As modas esquisitas do dedicado colecionador de tralhas Alexander Petlura e seus amigos fizeram com que a população de Moscou saísse da era Soviética, uma época em que o estado tinha recentemente deixado de colocar os subversivos em hospícios e alcoolismo enquanto a violência era um vasto problema social. Depois de abandonar o curso de design de interiores, Petlura organizou alguns dos primeiros festivais de rock da cidade, festas de moda e performances de rua às quais deu nomes tipo Russian Tanks Are The Hardest In The World Because They Are Iron Maiden. Petlura também é responsável pelo que foi provavelmente o primeiro squat de Moscou, assim como por aterrorizar a cidade com suas travessuras loucas e por vezes brutais. Nunca lhe faltavam ideias bizarras e iniciativas obscenas, como orgias mascaradas de performance artística. Engendrou também artimanhas do estilo pegar numa tiazona maluca, a Pani Broya, e fazer dela uma estrela global que até ganhou o título de Miss Mundo Alternativo, em Londres, anos antes da Demi Moore ter ouvido sequer falar da Susan Boyle. Fora que nem estávamos de brincadeira quando mencionamos a tralha; Petlura diz ter mais de vinte mil peças que ele e os amigos costumavam usar para escandalizar a cidade.
Alexander Petlura (à esquerda) e de gravata e calças boca-de-sino (na foto de abertura).
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VICE: Por que você desistiu da faculdade pra começar a usar roupas esquisitas?
Alexander Petlura: Não estive na faculdade durante muito tempo porque me cansei muito rápido de todas aquelas histórias arrogantes sobre feitos heróicos dos ativistas sociais. Ainda assim, tive a sorte de conhecer algumas pessoas que partilhavam a minha abordagem radical, então começamos a nos vestir de maneiras provocantes para enfurecer aqueles mariquinhas. Depois, criamos uma espécie de comunidade na qual podíamos nos sentir à vontade e relativamente seguros. Toda mundo fora deste círculo nos odiava, literalmente. Era como se estivéssemos em guerra com o resto do mundo.
Pani Broya
Era realmente perigoso ir contra o sistema durante os últimos tempos da União Soviética?
No outro dia passei por uma galeria onde conheci a Valeriya Guy Germanika—uma versão feminina e russa do Larry Clark. Estávamos conversando e mostrei algumas fotografias de uma exposição chamada Hooligans dos anos 80, fotos de punks russos de uns anos atrás. Ela não queria acreditar que as pessoas se vestiam assim. Disse-lhe: “Esses caras não eram mais que yobbos, vou te mostrar como os verdadeiros líderes se vestiam. Vai te deixar de queixo caído!” Eu era mesmo suicida. Cada vez que me metia no ônibus de volta para o dormitório encontrava com uns idiotas que me ameaçavam dar uma surra. E isso acontecia todos os dias.
O que acha dos artistas e designers de moda de Moscou hoje em dia?
Vêm sempre ao meu encontro. Todos esse fulanos que não têm bolas para serem realmente diferentes. Qualquer comunidade cria um exército de imitadores. Não curto tanto isso.
Algumas das suas performances no passado eram notoriamente provocantes. O que você acha do movimento Voina?
Não chamaria o que esse pessoal faz de performance artística. Prefiro ser um pouco mais esquisito, ou o que nós chamamos de “pozoriche”, em russo, o que literalmente significa um nível extremo de desonra. Uma vez dancei num palco com pessoas deficientes. Uma outra vez convidei velhos moribundos para participarem de um evento que aconteceu no squat em onde vivíamos. Ouvia muitas vezes, da parte de desconhecidos, que devia ser morto por obscenidades deste tipo, mas nunca me dei muita importância.
A Pani Bronya era uma das modelos estranhas vivendo no seu squat. Como a conheceu?
A Pani tornou-se uma musa para mim e tenho que admitir que ela era completamente insana. Não era muito difícil convencê-la de que a transformaria numa super estrela. Só disse: “Você vai ser a heroína principal no meu pequeno teatro” e ela se apaixonou completamente pela história. A Pani estava vivendo na mesma casa abandonada onde criamos o nosso squat. Teve uma época em que tínhamos mais de 30 pessoas de todo o mundo vivendo naquele lugar. A Pani era a nossa deusa, fazíamos sacrifícios em sua honra e ela se sentia totalmente como uma deusa pagã.
Como você e a Pani acabaram ganhando o título de Miss Mundo Alternativo em Londres?
Fomos para Londres os dois. Acho que ela não percebeu a diferença entre um prêmio alternativo e a cerimônia original. Bebemos muita vodka nesse dia e só depois de alguns shots é que ela conseguiu soletrar a palavra “alternativo” corretamente. Um ano depois, a Pani viu a verdadeira Miss Mundo na TV e ficou completamente furiosa. Não entrava na cabeça dela o motivo de não eles não terem a convidado para passar seu título à nova vencedora.
Considera a Pani uma artista, apesar de ser obviamente louca?
Ela dizia ter sido atriz antes de começar a viver naquele apartamento decrépito. Conversamos durante três horas quando nos conhecemos pela primeira vez, e eu até acreditei que isso podia ser verdade. Mas depois descobri que ela só fez parte de uma ou duas cenas como figurante. Para ser mais exato, atiraram-na para debaixo de um carro num episódio de um acidente falso. Portanto ela era sim atriz, mas só até certo ponto.
POR IGOR ZINATULIN E DARIA MATSIEVSKAYA VICE STYLE
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR
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