“Um por todos, todos por um.” *
Alguns minutos no bairro do Morumbi, carros, mansões e condomínios fechados luxuosos. Nas ruas, o apocalipse motorizado: só os carros, vez por outra alguma alma perdida nas ruas. Vira-se uma a esquerda, esquerda de novo, direita e ladeira abaixo. Agora a cena tá do avesso: muita gente na rua, molecada, mães adolescentes, cachorrada, casas humildes, aquela sobreposição de construções, puxadinho – malandragem até no jeito de se encaixotar.
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Minha amiga, motorista com couro curtido nas quebradas do mundaréu, buzina daqui, acelera dali, conversa com fulano, sicrano dá passagem, viela estreita e de repente um clarão no meio do Paraisópolis, uma dos vários quilombos modernos, pra usar a fala do rap: campo do Palmeirinha, coração tranquilo no meio das artérias agitadas. Terceira Copa da Paz, 2010, rua Melchior Giola, sem números (números…), Zona Sul de São Paulo. Tenta a sorte aí no Google Maps ou no Google Earth.
“Várzea é doloroso, é engraçado, é pitoresco, é vitória, é dignidade.”
Como não sou PM e logo não curto azedar o rolê dos outros, ao invés de jogar pra baixo os números de uma aglomeração de populares, vou jogar lá no alto a parada: digamos que ali ao lado de um imenso campão de terra mantido pela comunidade local (que os puxadinhos não se atrevam a pipocar ali!), havia umas mil e quinhentas pessoas – sei lá, vai ver é a imaginação fértil de um zé ruela que mal sai de Pinheiros. Mas que tinha uma muvuca tinha. Repete-se o perfil da rapaziada nas ruas, mais boleiros, molecada grudada na tela do campo sonhando em estar do lado de dentro, as princesas locais, ambulantes, pagodão, os pés-inchados, o baile todo. De drogas e armas, que fique para as páginas dos jornalões: num sei, num vi e tenho raiva de quem só quer enxergar essas coisas.
Nem transo um Corinthians, mas foi bem foda conhecer o “Super” Zé Maria, craque que fazia a festa da rapaziada alvinegra e foi para as Copas de 70, 74 e 78. O negrão ainda forte pra cacete (“bato uma bolinha de leve agora, na suave”) rola a bola de lado no centro do campo e tá dado início à Copa. Seis jogos um na rabeta do outro, tempos de 30 minutos (30, 35 minutos é o padrão na várzea). Zé Maria fala do Pelé e do Rivelino, os maiores que viu jogar, e passa um pano pro mala do Leão (“ele não era babaca, só que tinha outra cultura – a gente curtia um pagodinho e ele música clássica”).
“O clássico [comum] é um descampado, boteco e um lugar pra vestiário.”
Nem deu tempo de sonhar com jogo de Pelé e Cia, o bicho já tava pegando na primeira partida, dois times tensos, daquele jeito. O nível do futebol? Vá lá, retumbava o slogan do goró que patrocinava o evento, alegria de 10 entre 10 botequeiros, “que dureza”. Só que é o seguinte, colado ali no mesário e nos árbitros reservas (sim, o lance é fino, tudo na maior ordem, sem invasão de campo, sem treta), já do lado de lá da festa (tchau goró, tchau churrasco, tchau pagode!), você começa a ver o lance de outro jeito. E, na real, se falta qualidade técnica (zagueiro grosso lá atrás chuta pra frente e o resto que se vire pra fazer o gol), ninguém ali tá de bobeira na pista. Quando éramos reis: peladeiros têm a maior honra de defender seu time, nego saindo da construção e indo direto pro jogo, sem almoçar nem nada, botando o coração na ponta da chuteira. Amor pela parada sobra, dos técnicos à rapaziada da bateria (todo time chega chegando com bateria e foguetório e é tradição o dono do campo receber bem a rapaziada), ressoa Pelé dizendo “love, love, love” na orelha de cada um, sobretudo do pessoal empunhando o seu manto sagrado dentro das 4 linhas riscadas de cal pela molecada malandra da área.
“[no passado] Os times saíam de caminhão, às vezes um pro time e outra pra torcida. Hoje num pode mais.”
A primeira partida tinha poesia até no nome dos times: Morro da Paz e Unidos do Morro. Astral demais. Em geral, os nomes dos times são demais. Só na Copa da Paz: Vida Loka, Panela Problema, 100 Querer, Bate-Fácil (rá, só vendo pra saber por que), Fumaça F.C… E no mundo da várzea, nome de fazer inveja aos Washington Olivetto da vida é que não falta: Hermanos de Pelé, Muita Treta, Negritude, Entre Amigos, 100 Miséria, 100 Problema, Macolândia, Ratatá. E dos jogadores? Só tigre de fina estirpe: Barriga, Koloral, Sapatão, Branco (normalmente pra jogadores negros), Cláudio Sarará, Neguitão, Jacaré, Erê e mais todos aqueles copiando nome de jogadores famosos, Rivaldo, Rivelino (pros bigodudos), Bebeto (pros atacantes chorões) e por aí vai. Dentro de campo, juiz é professor, do lado de fora é filha da puta, como sempre. Melhor que juízes não tenham mãe.
As bandeirinhas, ah as bandeirinhas… Uma delas faz sucesso com geral, mas na marcação errada de impedimento já ganha um “vagabunda” de um jogador no banco, tudo anotado posteriormente pelo juiz pra puxar punição pro mané que não respeitou a gata. Aliás, até peguei o msn dela prum moleque que riscava o campo. Só depois descobri que o figura não sabia escrever, se deu mal.
“Eu lavo louça, arrumo a casa, saio pra trabalhar… porque não posso ir no campo ver o jogo, tio?”
Agora que a várzea tá profissa. Até meio dos anos 70, não existiam campeonatos – eram só “contras”. Chegaram os festivais (vários times jogando no mesmo dia, nada de festival de canção e o escambau) e depois os campeonatos. Sinal dos tempos. Eram 11 camisetas, 11 shorts e 11 meias. De pano. Imagina o futum que o reserva pegava do parceiro? E as tretas que devia dar com a patroa em casa, para lavar a inhaca? Aliás, mulheres foram ganhando espaço na arquibancada e hoje são em número considerável, discutindo o jogo e curtindo um pagodão, numa náice.
A Copa da Paz é emblemática da várzea atual: simulacro do mundo, esquecida comumente, mas tão importante pra representar as periferias de São Paulo quanto o carnaval, o pagode e o rap. A solidariedade perdida na floresta de concreto e aço tá ali, suando da arquibancada até o campo, no famoso lema peladeiro “raça pra ganhar, ruim pra perder”. Óbvio, cai a noite, os jogos acabam, somem crianças e mulheres e os homens vão virando lobos, curtidos na água de briga e outros aditivos. Mas aí malandro é malandro, mané é mané.
“[no passado] Era treta na mão. Male, male, tinha pedra e pau, tio.”
Todos os sábados, a partir das 13 horas, até 19 de junho, vão rolar etapas da Copa da Paz. É suave, na sintonia do nome do evento. A descontração é garantida e o que não vai faltar é gente pra fazer amizade. Comigo, o estrangeiro na área, todo mundo vinha trocar ideia, do molecote querendo saber se eu era da Globo até o cara que 20 anos atrás “brilhava”(isso na cabeça dele, em mim só chegava o bafo da marvada) naquele mesmo campo querendo saber se eu era “olheiro”(maluco que contrata jogadores amadores). O rango é barato e a média de gols num é lá uma beleza, mas, de repente, você se liga de uns lances da vida naquela curtição e fica na pilha de fazer exercícios pra bater uma bola – que na várzea é sagrada, quase uma religião. Saí dali achando que precisava daquilo, mas depois vi que eu realmente acreditava era em um copo de cerveja. Faz parte.
*As falas que entrecortam o texto são do documentário “Várzea, A Bola Rolada Na Beira do Coração”, do Akins Kinte, que inclusive estava lá na abertura da Copa. Recomendadíssimo, você pode arrumar o seu pelo mail akinskinte@yahoo.com.br
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