“Sempre quero que pareçamos acessíveis. Por isso que é tipo ‘se estiver na área, dá um toque, vamos tomar uma cerveja e falar sobre isso’. Sempre quero transparecer essa qualidade humana”, diz o baterista e fundador do Wolvhammer Heath Rave. Não é um sentimento que a maioria das pessoas esperaria vindo de alguém cuja música é tão obscura e ameaçadora quanto a deste grupo que desafia gêneros, mas um dos fatos não-tão-secretos do mundo do metal é que, muitas vezes, quanto mais feia a música, mais gente fina é o músico.
O terceiro álbum do Wolvhammer, Crawling Into Black Sun, é lançado pela Profound Lore nesta terça (8). O disco, gravado por Dan Jensen no Hideaway Studios, em Minneapolis, conta com a arte do amigo da banda e colega de selo Stavros Giannopoulos (The Atlas Moth), tomando um rumo diferente da mistura crua e que não leva desaforo pra casa de sludge com toques de black metal e punk do seu antecessor de 2011, The Obsidian Plains. Com a participação do guitarrista Jeff Wilson (Abigail Willians, Chrome Waves, ex-Nachtmystium), que entrou para a banda antes da gravação de Obsidian, e que surge como uma das principais força criativas do disco, a banda deixa de lado parte de sua abrasão sonora e depravação, revelando um centro ainda mais gélido e abissal sob as letras de influência ocultista do vocalista Adam Clemens, misturando melodias pesarosas e ressonantes com sua sonoridade raivosa característica e cheia de riffs.
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É o dia de folga de Rave de seu emprego como tatuador e ele e sua namorada me encontram no bar de Chicago que o Wolvhammer apontou como fornecedor das melhores asinhas de frango da cidade nas tardes de terça (“[As asinhas] são meio que um lance nosso”, ele explicou quando confirmamos o local). Sua próxima parada é uma loja de artigos de arte e então ir pra casa para brincar com seus pitbulls, mas primeiro conversamos sobre o novo álbum e como manter um equilíbrio entre emprego e o resto da vida quando ambos são meio que do caralho. Abaixo, uma versão resumida de nossa conversa.

Noisey: O Wolvhammer começou como uma mistura de tudo que você curtia de música pesada derivada do punk rock. Pode me falar como conseguiu juntar tudo isso?
Heath Rave:Eu estava tocando nessa banda de doom ultra-pesada e escrevemos um disco extremamente indulgente com três músicas e mais de 45 minutos de metal “sou foda” exagerado e me entediei pra cacete. Queria ter uma banda que soasse como o Motörhead tocando black metal, pra poder encher a cara e tocar a bateria bem rápido nas noites de sexta. Era isso. Já tinha até o nome, o nome mais foda e genérico do mundo. Até fiz um perfil no MySpace pra que ninguém roubasse-o de mim e desenhei os logos e a porra toda, mas não encontrei ninguém pra tocar por uns dois anos.
Soava como a banda dos seus sonhos quando você finalmente conseguiu levar adiante?
Vai soar como com quem você está tocando. Demorou um pouco pra encontrar gente com quem eu queria tocar. As mudanças na formação no decorrer dos anos funcionaram quando estávamos focados. O lance punk que você citou, dá pra sentir porque fazer essa entrevista com você aqui agora definitivamente não estava na minha lista de intenções com essa parada, por exemplo. Era só uma banda pra poder ficar bêbado nas noites de sexta e abrir pra bandas de amigos, só isso.
Então, o que impediu de levar tudo a outro nível?
Quatro meses após termos começado a tocar, Fred Pessaro (atual editor-chefe do Noisey gringo) nos colocou em uma mixtape do Brooklyn Vegan. Gravamos aquele treco, “Dawn of the Fourth”, e largamos na internet de graça. Fred ouviu e meteu lá no Brooklyn Vegan e de repente eu estava ocupado demais lidando com tudo aquilo.
Você já conhecia o Fred antes disso?
Não. Conhecemos Kim Kelly em uma festa na casa dos caras do Atlas Moth uns seis anos atrás. Dei a gravação a Kim, que deu pro Fred e daí em diante foi um efeito meio bola de neve. Hoje em dia o Fred é um bom amigo e foi ótimo com a gente, acho, porque já era um fã naquela época. Acho que se alguém nos conhece hoje em dia, é culpa dele.
A sua mudança pra Chicago foi mais pela música ou pela tatuagem?
A formação tinha mudado. Sabíamos que Andy iria se mudar pra São Francisco. Jeff havia entrado, meus melhores amigos moram aqui e eu estava de saco cheio em Minneapolis, então pareceu uma boa vir pra cá. Adam ficou lá, mas com a internet hoje em dia isso não é exatamente um problema.
Como funciona o processo de composição agora?
Jeff criou todo o disco. Todo. Alguns trechos nem ouvi até que entrássemos em estúdio. No último álbum, Andy e eu criávamos as estruturas das músicas. Jeff veio com um monte de melodias e leads. Ele também compôs a última faixa em Obsidian [“The Sentinels”].
Faz sentido. Essa música é meio que uma ponte pro novo álbum.
Com certeza. Se você ouve um atrás do outro, essa música poderia entrar no disco novo. Jeff tem um estilo bem único, especialmente se você lembrar do Assassins [álbum de 2008 do Nachtmystium, Assassins: Black Meddle, Part I], aí ouve nosso disco e dá pra sacar o quanto foi composto por ele. Jeff cria o que Jeff cria. Ele toca também no Chrome Wave e nos vejo como duas bestas diferentes. NoWolvhammer Jeff está puto e no Chrome Waves mais triste e melancólico, mas existem algumas semelhanças.
No ultimo álbum havia mais de vocês morando em Minneapolis, mas você veio até Chicago pra gravar. Desta vez foi o contrário. Como você chegou à decisão de trabalhar com Dan Jensen agora?
O Dan é um puta amigo. É meu antigo colega de quarto. Os lances do Off With Theirs Heads [que ele gravou] soam impecáveis. Eles são a maior banda de punk rock de Minneapolis agora, pra mim. Ele também toca no Battlefields e gravou aquele último disco deles lançado pela Init.
Parte da culpa foi do fato de ter me mudado pra cá pouco antes do Obsidian e o Jeff tinha acabado de entrar na banda, então seria mais fácil gravar lá. Acho que compomos um disco melhor agora e não queríamos aquelas distrações de casa. Mesmo sendo de Minneapolis e tendo me encontrado com alguns velhos amigos, eu não estava trabalhando nem nada, só estava lá pra tocar bateria. Dan é um puta engenheiro de som e quero dar a ele mais chances de trabalhar mais e colocar seu nome no mapa porque ele merece. Todos trabalhamos com Sanford [Parker] tantas vezes e em tantas coisas e ele já é ocupado o suficiente. Amo o cara, é um dos meus melhores amigos, mas era hora de tentar algo novo.

O Wolvhammer é uma banda que certa vez disse “não levamos tudo muito a sério. Não nos levamos muito a sério”. Essa afirmação ainda vale
Somos apenas fãs de metal fazendo o que queremos ouvir. Se você pegar cada um dos nossos discos dá pra sacar nossas influências naquele momento. Acho que esse álbum agora mostra mesmo o que sempre quisemos fazer e provavelmente é nosso trabalho mais sério, mas não somos tão cheios de si pra dizer que somos especiais ou qualquer merda dessas. Fazemos o que fazemos e nos divertimos com isso. Não rola nada dessa loucura ultra kvlt.
Há alguns temas em nossos álbuns – em todos eles, na verdade, falamos de umas paradas muito escrotas e negativas. O último disco foi era inteiramente sobre auto-abuso. Este agora é muito mais ocultista, culpa do Adam. Ele escolheu o nome e todas as letras são dele também. Nos antigos eu também escrevia algo, mas agora é tudo com o Adam, e a capa também. Então esse disco pode ser mais sério, mas ainda continua aquela zoeira roqueira no ar. Nunca queremos parecer inteligentes demais e ainda queremos bater a cabeça enquanto tocamos. Somos os mesmos caras de sempre!
Já que a música ficou mais séria no terceiro disco, fiquei pensando se a postura acompanharia essa mudança.
O que é engraçado mesmo é que agora é como se estivéssemos menos focados. Acho que ele saiu melhor porque não trabalhamos tão duro assim. Jeff compôs músicas ótimas com estruturas simples e belos ganchos. Chegamos em casa da turnê com o Black Dahlia Murder, então me mudei e aí tive as manhas de machucar minha mão feio em fevereiro, então deu tempo de gravar algumas demos e não as toquei até entrarmos no estúdio de novo. Os pontos foram retirados quatro dias antes de irmos para Minneapolis.
Você pôde trabalhar durante esse tempo?
Eu não estava tatuando, então fiquei parado por umas três semanas, enchendo a cara com uma tala na mão. De verdade, quando gravamos foi a primeira vez que me diverti em um bom tempo, então estava deixando toda aquela merda sair de mim. Foi um disco divertido de se fazer, provavelmente por isso.
Você pode me falar um pouco da arte do álbum e suas temáticas? Sendo você um artista, qual foi o seu grau de envolvimento desta vez?
Fiz um rascunho e Stavros fez a capa. No Black Marketeers of World War III [estreia da banda], desenhei a capa e Stavros trabalhou em cima dela. Foi uma bela colaboração nossa. A última contou com fotos de Jimmy Hubbard e Stavros cuidou do layout. Dessa vez, estava tão ocupado tatuando que não tive vontade de desenhar tanto assim. Fiz um rascunho de um círculo, umas flechas e uma serpente. Levou uns cinco minutos, mandei a foto pro Stavros e disse: “faz isso” e ele chegou com a arte no outro dia.
Você curte simbologia?
Conheço um pouco, mas não vou fingir que sou especialista. O sol negro aparentemente seria algo oculto ou satânico sobre fé em si mesmo. Aí eu quis colocar umas flechas, as flechas pra fora são em retaliação a quem não entende isso.
Então retaliação foi um tema principal todo esse tempo?
Com certeza. Se você quer ir mais fundo, eu comecei essa banda pra me divertir, mas na época… Eu não vou citar nomes do black metal americano, e isso não é referência nenhuma aos meus amigos ou qualquer coisa dessas. Leviathan e Krieg são duas bandas intocáveis e com quem não se mexe, então não estou me referindo a eles. Eles sempre souberam que black metal é sobre sangue e vísceras, e não sobre, sei lá… Essas merdas de agricultura ambiental politicamente correta, se é que você me entende, então foi meio que uma reação quase que direta a todas essas bandas vindo com essa bosta artística politicamente correta e ainda assim devendo fortunas em royalties ao Varg [Vikernes, o homem por trás do Burzum] por plagiarem todas as suas músicas. É assim que toda essa porcariada me parece. Acho chato. Eu pensava tipo: “quero ouvir bandas que soem como Venom, Bathory e Motörhead”. Ficamos um pouco mais esotéricos, abrasivos, e tristes, mas essa vibe ainda está ali, com certeza.

Você está envolvido com alguma outra coisa, em termos musicais, ultimamente ou há alguma relação entre a sua arte e o mundo da música?
Este ano fiz o logo do Corrections House. Está em toda a parte. Acho que me vendi mais que o cara que fez o logo do Rolling Stones a essa altura do campeonato. Trabalhei junto com os caras nele, o que foi uma grande honra. Acho que vi o Neurosis pela primeira vez aos 13 anos, então sou fã dos bichos há mais de 20 anos. E sou um puta fã de Eyehategod também. Tive a chance de ver Neurosis, Eyehategod e o Dead and Gone em 1996, quando estava no segundo ano do ensino médio. Então trabalhar com Mike [Williams] e Scott [Kelly], e dois dos meus melhores amigos em todo o mundo, Bruce [Lamont] e Sanford… Sanford havia visto o símbolo que criei pro Wolvhammer e disse: “Nós precisamos de algo assim”. Fiquei muito lisonjeado de fazê-lo. A única outra vez que tinha feito o logo de uma banda havia sido pro Battlefields, um velho com chifres. Gostaria de fazer isso mais vezes, criar logos para bandas.
O Corrections House levou a coisa a outro nível, é propaganda séria. Gosto tudo de que eles andam fazendo, essa coisa na cara, meio Bloco Oriental, meio beligerante. Fico feliz de ter feito parte de tudo desde o começo.
E sobre a comunidade da tatuagem e a sua música?
Tento deixar tudo bem separado. Quando toco bateria a ideia é que aquilo seja minha folga do trabalho, porque passo muito do meu tempo naquilo. Amo o que faço e trabalho em um dos melhores estúdios da cidade e tenho um dos melhores chefes e vivo ocupado e não poderia estar mais feliz nem nada poderia ser melhor. É demais. Minha vida é só tatuagem, skate, metal e pitbulls, então é uma existência bem bacana. Tô vivendo o sonho!
Traduzido por: Thiago “Índio” Silva
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